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Galípolo usa Crise do Banco Master para Defender Autonomia Total do Banco Central e Alerta: “Sistema Financeiro Está Vulnerável”

O presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, surpreendeu ao dedicar grande parte de sua participação na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado ao caso do Banco Master, deixando a discussão sobre política monetária em segundo plano.

A analista do CNN Money, Lucinda Pinto, observou que raramente o chefe da autoridade monetária é tão questionado sobre temas que fogem da taxa de juros. Galípolo aproveitou a oportunidade para fazer uma defesa enfática da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que busca ampliar a autonomia do BC.

Segundo Pinto, a estratégia de Galípolo foi transformar a crise do Banco Master em um argumento para a necessidade de um Banco Central mais equipado. Ele questionou veementemente a falta de recursos e poder de fiscalização da instituição, destacando a rápida expansão do mercado financeiro.

Comparativo Internacional e a Defasagem do BC Brasileiro

Galípolo ressaltou a gritante diferença entre o Banco Central do Brasil e suas contrapartes internacionais. Ele exemplificou que, enquanto o Banco Central Europeu (BCE) conta com cerca de 20 técnicos para cada instituição sob sua supervisão, no Brasil essa relação se inverte, com um técnico para cada 20 entidades.

Além disso, o presidente do BC mencionou o esforço hercúleo de seus servidores, que trabalham em horários extenuantes, incluindo madrugadas e fins de semana, apenas para garantir o funcionamento do sistema de pagamentos instantâneos, o Pix. Essa sobrecarga de trabalho evidencia a falta de pessoal e recursos.

PEC da Autonomia: Futuro Incerto no Congresso

A perspectiva de avanço da PEC que visa aumentar a autonomia do Banco Central no curto prazo é considerada incerta. O relator da proposta, senador Plínio Valério, informou que o texto será lido na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) nesta quarta-feira (20), mas antecipou a provável ocorrência de pedidos de vista, que podem atrasar a tramitação.

Lucinda Pinto avalia que o projeto dificilmente terá condições de avançar de forma significativa ainda neste ano. A urgência da matéria se torna ainda mais evidente diante do crescimento e da complexidade crescente do sistema financeiro, que engloba fintechs, open finance e operações cada vez mais sofisticadas.

Vulnerabilidades do Sistema Financeiro Brasileiro

A analista alertou que a necessidade de submeter qualquer aquisição ou desenvolvimento tecnológico a outras instâncias governamentais impede que o Banco Central tenha a agilidade necessária para se modernizar. Isso, segundo Pinto, torna o sistema financeiro progressivamente mais vulnerável a ataques cibernéticos, golpes e fraudes.

Ela ainda lembrou que países como México e Chile já possuem legislações mais avançadas em termos de autonomia e agilidade para suas autoridades monetárias, demonstrando que o Brasil está defasado nesse quesito crucial para a estabilidade econômica.

Política Monetária: Cenário Preocupante e Expectativas de Juros

Apesar de ter ocupado um espaço menor na fala de Galípolo, a política monetária foi abordada. Ele apresentou um cenário preocupante, reiterando o compromisso do Banco Central em perseguir a meta de inflação e sinalizando que os juros continuarão a reagir às expectativas de mercado.

As projeções indicam um cenário desafiador, com a mediana das projeções do IPCA em 4,92% para 2026 e 4% para 2027. O fenômeno El Niño também é apontado como um fator que pode agravar o quadro inflacionário no próximo ano.

Galípolo não sinalizou que a inflação atual seria tratada como um choque de oferta, divergindo da posição adotada pelo Ministério da Fazenda. Newton Davi, diretor do Banco Central, reforçou em um evento do Santander que a política monetária seguirá rigorosa até que as expectativas de inflação estejam ancoradas na meta.

O relatório Focus aponta que a mediana das projeções para a taxa Selic está em 13,25% para este ano, 11% para 2025 e 10% para 2028, sem uma perspectiva clara de retorno a taxas de um dígito nos próximos anos, o que reforça a necessidade de atenção à condução da política monetária e à estrutura de supervisão do sistema financeiro.

By Ana Clara Martins

Ana Clara Martins é jornalista e redatora especializada em cultura pop, entretenimento e tendências digitais. Atua há mais de 5 anos na produção de conteúdo para blogs, portais e redes sociais, sempre com foco em engajamento e credibilidade.