EUA precisam de carne bovina mais “magra” e Brasil pode se beneficiar
O mercado de carne bovina nos Estados Unidos está passando por uma transformação significativa, impactando produtores e estratégias globais, incluindo as brasileiras. A demanda por cortes mais magros tem crescido, criando uma lacuna que o Brasil, tradicional fornecedor de carne magra, pode preencher.
Dados apresentados por Luis Burciaga, consultor da Telus Agricultura, na Feicorte 2026, revelam que, apesar da redução no número de fêmeas reprodutoras nos EUA, a produção de carne de alta qualidade (Prime) tem aumentado. No entanto, uma inversão de preços entre cortes intermediários (Choice) e mais magros (Select) sinaliza uma escassez do produto “comum” e mais acessível.
A carne moída, que representa quase 48% do consumo norte-americano, mantém sua popularidade. A necessidade de misturar a carne magra brasileira com cortes mais gordurosos locais para a produção de hambúrgueres reforça a interdependência entre os mercados. Essa tendência, aliada ao aumento do uso de medicamentos emagrecedores, intensifica a busca por carne bovina com menos gordura. Essas informações foram divulgadas por Luis Burciaga durante a Feicorte 2026, realizada em Presidente Prudente (SP).
O Mercado Americano em Transformação
Historicamente, os Estados Unidos tinham cerca de 45 milhões de fêmeas para reprodução na década de 1970. Em janeiro de 2026, esse número caiu para 27,6 milhões, o menor em décadas, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA). Contudo, a produção total de carne bovina não acompanhou essa queda proporcionalmente, graças a um **aprimoramento genético** que tornou os animais muito mais produtivos.
A produção de carne classificada como Prime, voltada para o mercado gourmet, continua em ascensão nos EUA. Mesmo com a redução geral nos abates, esses cortes representam mais de 14% do total, evidenciando os investimentos em qualidade. Em janeiro de 2026, o abate para o mercado Prime aumentou 3%, com 6.500 cabeças a mais destinadas a este segmento de alto valor agregado.
A Lacuna da Carne “Comum” e a Oportunidade Brasileira
O ponto crucial da mudança no mercado americano é a inversão de preços entre os cortes. Pela primeira vez, a carne de qualidade intermediária (Choice) pode se tornar mais cara que a mais magra (Select). Essa inversão ocorre devido à **menor oferta de carne “comum” e mais barata**, um nicho onde o Brasil tem grande potencial para atuar.
A demanda por carne moída nos EUA é forte, representando quase metade do consumo. O Brasil exporta principalmente carne magra para os norte-americanos, que a utilizam para equilibrar o teor de gordura da carne moída produzida localmente. Essa **interdependência** é fundamental para a produção de hambúrgueres, um item essencial na dieta dos EUA, conforme explicou Burciaga.
Competição Global e o Futuro do Agronegócio Brasileiro
Para o Brasil, essa nova dinâmica representa tanto oportunidades quanto riscos. A competição global está se intensificando, com países como o México aprimorando seus sistemas de produção. O México, que antes exportava bezerros para serem terminados nos EUA, agora está **aumentando sua capacidade de abate** e exportando carne processada, agregando valor localmente.
Outro exemplo é a Mongólia, que com um sistema de produção extensivo baseado em pastagens naturais e baixo custo de terra, se posiciona estrategicamente para exportar carne barata e acessível para a China. A proximidade logística da Mongólia com a China pode representar um desafio para o Brasil, que está geograficamente mais distante, alertou o consultor Luis Burciaga. O agronegócio brasileiro precisa estar atento a essas tendências para **manter sua competitividade** no cenário internacional.