Entenda a polêmica das vendas de armas dos EUA para Taiwan e a reação da China
A recente cúpula entre Donald Trump e Xi Jinping trouxe à tona um dos pontos mais sensíveis da relação entre Estados Unidos e China: Taiwan. As vendas de armas americanas para a ilha democrática, que Pequim considera uma província rebelde, reacenderam preocupações e alertas por parte do governo chinês.
Xi Jinping chegou a classificar a questão de Taiwan como a mais importante entre os dois países, alertando que um mau gerenciamento poderia levar a uma “situação muito perigosa”. A postura de Washington em apoiar a autodefesa taiwanesa, através do fornecimento de armamentos, é vista pela China como uma interferência em seus assuntos internos.
As declarações e os movimentos em torno dessas vendas, incluindo um possível adiamento por parte de Trump, geraram confusão e especulações. Para compreender a fundo essa complexa dinâmica, é crucial analisar a legislação que ampara essas transações e o histórico de entregas de armamentos para Taiwan, conforme divulgado pela CNN.
A Lei de Relações com Taiwan: O Pilar da Autodefesa
A base legal para o fornecimento de armas dos EUA a Taiwan reside na Lei de Relações com Taiwan, promulgada pelo Congresso americano em 1979. Essa lei surgiu como resposta ao reconhecimento diplomático que os EUA transferiram de Taipei para Pequim, encerrando um tratado de defesa mútua.
O Congresso, sentindo que a ilha havia ficado vulnerável, estabeleceu que o futuro de Taiwan deve ser decidido por “meios pacíficos”. Crucialmente, a lei obriga os EUA a fornecerem a Taiwan “armas de caráter defensivo”, garantindo sua “capacidade de autodefesa suficiente”.
Apesar de um comunicado conjunto EUA-China de 1982 mencionar a intenção americana de reduzir gradualmente as vendas de armas, Pequim interpreta isso como um compromisso vinculativo. Contudo, autoridades americanas contestam essa visão, afirmando que nunca houve acordo para definir uma data para o fim dessas vendas, nem para consultar Pequim previamente.
O Fluxo de Armas: Atrasos e Desafios na Entrega
Desde 1979, Taiwan adquiriu bilhões de dólares em sistemas militares dos EUA. No entanto, a entrega desses armamentos nem sempre é rápida. Especialistas apontam que vendas de defesa podem levar anos para serem concluídas, com entregas totais demorando ainda mais.
Jeff Abramson, pesquisador sênior do Centro de Política Internacional (CIP), explica que as armas geralmente são encomendadas, e o prazo de entrega depende da capacidade industrial, prioridades militares dos EUA e de outros países na fila. Essa realidade impacta Taiwan, que, segundo um relatório do projeto Taiwan Security Monitor (TSM) da Universidade George Mason, tem um atraso de quase US$ 30 bilhões em armamentos ainda a serem entregues.
Exemplos notórios incluem um pedido de 108 tanques Abrams feito em 2019, que levou 81 meses para ser atendido, com as unidades finais chegando apenas no mês passado. Da mesma forma, caças F-16 encomendados em 2019 ainda aguardam entrega, com a produção e testes de voo começando recentemente.
O Debate Interno em Taiwan e a “Estratégia do Porco-Espinho”
Diante desses longos prazos de entrega, um debate interno em Taiwan tem crescido sobre a eficácia da aquisição de armamentos caros e de grande porte. Muitos defendem a chamada “estratégia do porco-espinho”, que prioriza armamentos assimétricos, baratos e fáceis de produzir, como drones e mísseis antinavio.
A produção doméstica desses armamentos assimétricos é vista como uma possível solução para Taipei. Segundo o TSM, a carteira de pedidos de armas da ilha está quase igualmente dividida entre armamentos assimétricos e tradicionais, indicando uma busca por maior agilidade e capacidade de resposta.
O Impacto do Atraso de Trump e a Crise na Produção de Armas
Analistas sugerem que o atraso de Trump na assinatura de um acordo recente de US$ 14 bilhões, focado em defesas aéreas e contramedidas contra drones, tem pouco impacto imediato na prontidão militar de Taiwan, dado o histórico de longos prazos de entrega. Contudo, esse atraso pode significar que o pedido de Taiwan seja relegado a um segundo plano.
A situação é agravada por uma aparente crise na produção de armas americanas, que afeta todos os clientes. O reabastecimento de estoques de mísseis antiaéreos, consumidos em conflitos como o do Irã, exige prazos de produção extensos. Por exemplo, os interceptores avançados PAC-3 MSE necessitam de 24 meses para o míssil e 30 meses para o motor.
Isso significa que, mesmo com a aprovação imediata, Taiwan não operaria novos Patriots antes de 2028. O’Connor, do TSM, destaca que a área onde um atraso na assinatura pode causar problemas mais imediatos é no planejamento de forças, onde as compras de armas são incorporadas a esforços de modernização. No entanto, ele ressalta que pedidos já contratados parecem estar em andamento.
Abramson, do CIP, pondera que a importância de pacotes de armas muda com o tempo e que, em muitas situações, “outras atividades para desarmar a situação terão mais impacto do que o fornecimento de armas”. A complexa interação entre política, legislação e capacidade industrial continuará a moldar o futuro da segurança em torno de Taiwan.