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Trigo em Alta: Safra Menor Prevista e Custos Elevados Sustentam Preços no Mercado Interno Brasileiro

Safra de trigo 2026 com produção estimada em 6,9 milhões de toneladas, 12,3% inferior à de 2025, segundo a Conab

A perspectiva de uma safra de trigo menor no Brasil, aliada a um cenário de custos de produção elevados, tem sido o principal motor por trás da sustentação dos preços do cereal no mercado interno. A área cultivada com trigo no país pode atingir o menor patamar desde 2020, um fator que explica a firmeza das cotações atuais.

Os preços do trigo têm mostrado uma trajetória ascendente. Se no final de março as cotações giravam em torno de R$ 1.284,93 por tonelada, atualmente os valores se aproximam de R$ 1.342,19 por tonelada. Essa alta representa um avanço de aproximadamente 4,46% no período, demonstrando a pressão do lado da oferta.

Conforme levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra de trigo de 2026 está projetada em 6,9 milhões de toneladas, um volume que se mostra 12,3% inferior ao registrado em 2025. Essa redução é atribuída à diminuição de 5,2% na área cultivada e a um impacto na produtividade, reflexo de margens apertadas e condições climáticas incertas que afetam os produtores.

Menor Área Cultivada e Produtividade em Declínio

A área nacional destinada ao cultivo de trigo deve somar 2,22 milhões de hectares, o que representa uma queda de 9,2% em relação a 2025. Paralelamente, a produtividade média é estimada em 2.979 quilos por hectare, um recuo de 7,5%. O resultado final aponta para uma produção de 6,6 milhões de toneladas, um volume 16% menor que a safra anterior, com uma redução superior a 1,2 milhão de toneladas.

Pesquisadores do Centro de Pesquisa e Estudos Avançados em Economia Agrícola (Cepea) apontam que este cenário é um reflexo direto da **baixa rentabilidade observada nas últimas safras**, somada às **incertezas climáticas** e aos riscos inerentes à comercialização. Desde o segundo semestre de 2025, os preços no Sul do Brasil têm sido negociados abaixo dos patamares mínimos estabelecidos pela Política Nacional de Preços Mínimos, o que, consequentemente, desestimula o plantio.

Descapitalização e Custos Elevados Pressionam Produtores

Hamilton Jardim, Presidente da Comissão de Trigo da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), destaca que a quebra na safra no Rio Grande do Sul tende a ser **acentuada**, independentemente do nível tecnológico empregado. “No Rio Grande do Sul a quebra vai ser acentuadíssima, sem considerar a tecnologia utilizada. A descapitalização dos produtores é muito grande”, afirma Jardim.

A consultoria Safras & Mercado também avalia que a retração nas principais regiões produtoras de trigo está ligada a uma combinação de fatores econômicos e climáticos. Segundo Élcio Bento, analista de mercado da consultoria, o principal desestímulo vem da **piora na relação de troca** entre o preço do trigo e o custo dos insumos, com destaque para os fertilizantes, especialmente os nitrogenados, que continuam pressionando os custos de produção.

A Safras & Mercado alerta ainda para a possibilidade da ocorrência do fenômeno El Niño no segundo semestre, o que gera preocupação entre os produtores, principalmente no Sul do país. “O fenômeno tende a aumentar a frequência de chuvas em fases críticas do desenvolvimento do trigo, elevando o risco de problemas de qualidade, como maior incidência de doenças na cultura e presença de micotoxinas”, informou a consultoria.

A liderança da Farsul também ressalta que os custos de produção do trigo seguem pressionados por fatores logísticos e geopolíticos. “O custo de produção está altamente impactado por esse problema do Estreito de Ormuz e também pelos fertilizantes que por lá transitam, principalmente os nitrogenados. Consequentemente, o custo da safra vai ser alto”, diz Hamilton Jardim.

Restrições de Crédito e Seguro Rural Agravam o Cenário

Hamilton Jardim também chama atenção para as limitações no acesso a crédito e seguro rural para os produtores de trigo. “O crédito é bastante restrito e o seguro, além de caro, muitas vezes não atende às necessidades do produtor. Isso acaba elevando os custos e impactando diretamente a rentabilidade. A situação, de forma geral, é bastante delicada”, afirma.

O analista da Safras & Mercado destacou que o baixo volume de vendas de sementes certificadas reforça a expectativa de retração da área cultivada ou de menor investimento tecnológico nas lavouras de trigo. Este cenário tende a manter os preços sustentados, diante de uma oferta mais restrita.

No Paraná, a tendência também é de quebra na safra de inverno de trigo, com exceção da canola, que deve crescer devido a uma relação de troca mais favorável. “Nós vamos ter um inverno com pouca área cultivada, infelizmente”, destacou um representante do setor à CNN.

Por outro lado, a consultoria Safras & Mercado aponta um avanço na área plantada de trigo em regiões do eixo tradicional de produção, como Minas Gerais, que deve ampliar sua área em 24%, passando de 125 mil para 155 mil hectares, com produção estimada em 500 mil toneladas. Goiás e o Distrito Federal devem registrar um aumento de 17,6% na área, alcançando cerca de 80 mil hectares, com produção projetada em 360 mil toneladas.