Investigação da PF aponta Dias Toffoli como beneficiário de fundo com R$ 35 milhões de ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Um relatório da Polícia Federal levanta a hipótese de que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, seria o beneficiário final ou o proprietário de fato do Fundo de Investimento em Participações Arleen. Este fundo teria recebido pelo menos R$ 35 milhões do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, segundo informações divulgadas pela revista Piauí.
A investigação detalha uma complexa operação financeira que envolveu a transferência de recursos do fundo para uma estrutura sediada nas Ilhas Virgens Britânicas, um conhecido paraíso fiscal. O Fundo Arleen possuía participação no Tayayá, um resort associado a Toffoli e sua família.
O documento da PF descreve como o fundo, inicialmente pertencente a Vorcaro, foi transferido para o empresário Alberto Leite, amigo de Toffoli e proprietário da empresa de segurança FS Security. Posteriormente, os ativos foram movidos para uma offshore, levantando questionamentos sobre a real destinação dos valores. Conforme a PF, tais movimentações podem indicar que Toffoli figurava como beneficiário final.
Detalhamento da Operação Financeira e Conexões com Toffoli
O relatório da Polícia Federal detalha que, por meio da empresa Egide I, os R$ 35 milhões do Fundo Arleen foram direcionados a uma entidade registrada nas Ilhas Virgens Britânicas. O Fundo Arleen era, inclusive, sócio do Tayayá, resort localizado em Ribeirão Claro, no interior do Paraná, com ligações com o ministro Dias Toffoli e sua família.
Segundo a apuração, o fundo pertencia a Daniel Vorcaro e, em fevereiro de 2025, foi adquirido pelo empresário Alberto Leite, um amigo próximo de Toffoli e dono da FS Security. Logo após a aquisição, Leite registrou a Egide I nas Ilhas Virgens Britânicas e o regulamento do Arleen foi alterado para permitir investimentos no exterior.
Em novembro do mesmo ano, o fundo iniciou a venda de suas cotas, transferindo cerca de R$ 34 milhões para a empresa sediada no paraíso fiscal caribenho. A PF concluiu que “todo o ativo do Arleen […] é transferido para a Egide I Hodling na liquidação do fundo”, indicando uma possível estratégia para ocultar a origem ou destino final dos recursos.
Vorcaro Acompanhava Pagamentos e Discutia Saída do Tayayá
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro demonstrava grande interesse nos pagamentos destinados ao Fundo Arleen. Em agosto de 2024, segundo a PF, ele expressou preocupação com atrasos nas transferências e contatou operadores financeiros, incluindo seu cunhado Fabiano Zettel e o ex-ministro Fábio Faria. Vorcaro chegou a enviar uma mensagem a Toffoli para justificar os atrasos.
Em novembro de 2025, após uma decisão judicial relacionada ao caso da usina Alcídia, Vorcaro começou a planejar sua saída do Tayayá e, consequentemente, sua desvinculação do Fundo Arleen. Em uma mensagem a Zettel, o banqueiro mencionou que o “FIP Tayayá” deveria passar para “um amigo que vai comprar”, referindo-se a Alberto Leite.
Vorcaro, em conversas interceptadas pela PF, chegou a pedir para que Alberto Leite entrasse em contato. A investigação aponta que Leite também esteve envolvido em outros episódios, como a criação da Skylink, empresa que representaria a Starlink de Elon Musk no Brasil, ao lado de Fábio Faria e do próprio Vorcaro.
Alberto Leite e a Conexão com Toffoli: Patrocínios e Viagens
A FS Security, empresa de Alberto Leite, apareceu como patrocinadora de um fórum jurídico em Londres, organizado pelo Banco Master. Contudo, Vorcaro teria posteriormente ordenado a retirada da empresa da lista de patrocinadores. Em junho de 2024, Leite custeou um camarote na final da Liga dos Campeões, em Londres, evento que contou com a presença de Dias Toffoli.
Na época, Leite declarou à Folha de S.Paulo que a aquisição do Fundo Arleen foi uma operação imobiliária regular e lucrativa, negando qualquer vínculo societário, comercial ou de favorecimento com Toffoli. Ele afirmou que a operação foi realizada por meio de seu braço de investimentos.
Caso dos Precatórios: Suspeitas de Influência em Decisão Judicial
O relatório da PF também investiga a possibilidade de Daniel Vorcaro ter tentado influenciar uma decisão de Dias Toffoli em um processo judicial envolvendo precatórios do setor sucroalcooleiro. O caso da destilaria Alcídia, do grupo Atvos, cobrava da União uma reparação por prejuízos ocorridos na década de 1980.
Uma decisão favorável à Alcídia poderia impactar significativamente a carteira de precatórios do setor mantida pelo Banco Master, estimada em mais de R$ 10 bilhões. Antes do julgamento, o diretor jurídico do Master, André Kruschewsky, enviou uma mensagem a Vorcaro: “É importante! Serve de paradigma para nossos casos.”
A PF notou que, embora Toffoli historicamente tivesse uma posição favorável às usinas em casos de precatórios, ele teria adotado uma postura diferente em uma ação similar dias antes do julgamento da Alcídia, votando a favor da União. Mensagens trocadas por pessoas próximas a Vorcaro após essa mudança de entendimento expressaram preocupação, com Fábio Faria escrevendo: “Matou a gente” e “Comecei a suar”.
Vorcaro, em troca de mensagens com Kruschewsky, afirmou: “Estou acompanhando” e “mais do que imagina”, reiterando em seguida: “Tô tratando aqui”. Apesar disso, no julgamento da Alcídia, em outubro de 2024, Toffoli votou a favor da usina, com a tese vencendo por 3 votos a 2, resultado comemorado por integrantes do Master. O gabinete de Toffoli negou qualquer “alteração de voto” à revista Piauí.
Outros Vínculos entre Toffoli, Vorcaro e a Ex-Esposa do Ministro
A investigação da PF identificou pelo menos 12 encontros presenciais entre Dias Toffoli e Daniel Vorcaro, em contextos considerados não estritamente profissionais. A expressão “nosso amigo Zé Tof”, encontrada em mensagens, sugere a existência de um vínculo pessoal entre ambos.
O relatório também aponta uma relação profissional entre Vorcaro e Roberta Rangel, então esposa de Toffoli. Ela teria atuado como advogada do banqueiro entre dezembro de 2020 e fevereiro de 2025. Em março de 2024, um advogado informou Vorcaro sobre a constituição de Roberta Rangel como advogada da parte contrária em um processo no STJ, identificando-a como “Mulher do Toffoli”. Vorcaro respondeu: “Ela é minha advogada”.
O documento descreve que Roberta Rangel figurou como advogada de Daniel Vorcaro, com vínculos profissionais e logísticos identificados. Um sócio do escritório Walfrido Warde enviou a Vorcaro, em maio de 2021, uma procuração onde Roberta Rangel representava a Companhia Agroindustrial de Goiânia em uma ação rescisória. O precatório desta empresa, somando R$ 1,8 bilhão, fazia parte da carteira de ativos do Banco Master.
Dez meses após o último registro da relação profissional entre Vorcaro e Roberta Rangel, Dias Toffoli foi sorteado como relator do caso Master no STF, mas posteriormente abriu mão da relatoria. A PF encaminhou o relatório ao presidente do STF, Edson Fachin, solicitando a suspeição de Toffoli. No entanto, o pedido perdeu o objeto e o documento foi arquivado após Toffoli se afastar da relatoria. O ministro André Mendonça assumiu a relatoria do caso Master em fevereiro, e parte das investigações teve o sigilo retirado, mas o relatório que citava Toffoli não foi incluído por já ter sido arquivado.
