Supersexta da Inflação: Brasil e EUA sob Tensão da Guerra no Oriente Médio, Mercado Financeiro em Alerta
A sexta-feira, 10 de março, marca um dia de grande atenção para a economia global, com a divulgação de dados cruciais de inflação no Brasil e nos Estados Unidos referentes ao mês de março. Esses indicadores são aguardados com expectativa pelo mercado financeiro e pelas autoridades monetárias, que buscam entender os reflexos da recente escalada de tensões no Oriente Médio sobre os preços.
No Brasil, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) será apresentado às 9h pelo IBGE. Pouco depois, às 9h30, o Departamento do Trabalho dos EUA divulgará o Índice de Preços ao Consumidor (CPI). Ambos os números ganham relevância adicional em um cenário de incertezas geopolíticas.
A economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Natalie Victal, destaca que os dados chegam em um momento de pressão sobre as autoridades monetárias, devido às incertezas sobre os desdobramentos dos conflitos entre Estados Unidos, Israel e Irã. Esses eventos podem gerar um cenário desafiador para o controle da inflação em ambos os países. Conforme informação divulgada pelo mercado financeiro, as expectativas de inflação vinham se deteriorando desde fevereiro, com projeções indicando uma alta considerável para o IPCA de março.
Brasil: IPCA sob a mira de alimentos e combustíveis
No Brasil, as expectativas apontam para um IPCA pressionado em março. Analistas consultados pelo CNN Money esperam reflexos claros da guerra nos dados. Roberto Padovani, economista-chefe do BV, prevê alta de 0,71% na margem mensal, atribuindo parte da pressão ao aumento dos preços do petróleo, um choque de oferta que afeta a convergência da inflação.
Os principais vilões para o bolso do consumidor brasileiro em março, segundo Padovani, são os alimentos e os combustíveis. Além desses componentes voláteis, o núcleo da inflação, que reflete tendências de longo prazo, tem apresentado surpresas altistas, segundo o BTG Pactual. A alimentação no domicílio, especialmente produtos in natura, e os serviços, impulsionados por um mercado de trabalho apertado, são apontados como fatores de resistência à desinflação.
O economista Ederson Schumanski, do BTG Pactual, ressalta que o processo de desinflação iniciado no ano passado pode estar dando sinais de estabilização. A alta do petróleo, em particular, traz um viés altista para as projeções de inflação para o ano. Há também a possibilidade de pressão adicional em alimentos no segundo semestre devido ao efeito secundário da alta do diesel.
Outros componentes que devem apresentar alta na leitura do IPCA incluem bens industriais, vestuário e energia elétrica, segundo análise do Banco Daycoval. A consultoria 4intelligence aponta que reajustes mais fortes de energia elétrica e o aumento da tributação sobre cigarros também devem contaminar as leituras ao longo do ano, além do impacto de passagens aéreas e combustíveis nos fretes e insumos.
Impacto na Política Monetária Brasileira
O cenário de inflação elevada aumenta as chances de que o Banco Central enfrente dificuldades para manter a inflação abaixo do teto da meta de 4,5% por mais de seis meses consecutivos. A 4intelligence avalia que isso reforça o balanço de riscos altistas, impactando diretamente o trabalho do Banco Central.
Nesse contexto, a postura cautelosa reiterada pelos diretores do Banco Central em relação aos próximos passos da política monetária se mostra não apenas prudente, mas necessária. A instituição informou que avaliará o desenrolar do cenário externo nos próximos dias para recalibrar suas projeções para a taxa Selic e o seu nível final de cortes.
Inflação nos EUA: CPI em foco após PCE
Nos Estados Unidos, o Índice de Preços ao Consumidor (CPI) de março será divulgado sob a sombra do recente relatório do PCE (Personal Consumption Expenditures), que já indicou que a inflação norte-americana permanece bem acima da meta de 2% do Federal Reserve (Fed). Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, destaca que o PCE de fevereiro ainda não incorporava o impacto total da guerra no Oriente Médio.
Zogbi explica que o Fed opera em um ambiente de “inflação residual”, onde o núcleo da inflação já está acima da meta antes mesmo que o impacto do petróleo e frete se propague completamente. Assim, os dados do CPI de março devem apresentar uma aceleração, impulsionados principalmente por energia e combustíveis, cujos preços foram diretamente afetados pelo conflito.
O consenso do mercado projeta um CPI geral em torno de 1% na base mensal para março, a maior variação em um ano, com o núcleo em torno de 0,3%. Na base anual, o CPI geral deve ficar perto de 3%, ainda acima da meta de 2% do Fed. A alta de 35% a 40% no preço da gasolina nos EUA desde o início do conflito contribui significativamente para essa projeção.
Cortes de Juros em Xeque?
A economista Paula Zogbi aponta que, se o CPI vier no piso das expectativas, o Fed tende a reforçar a visão de que os cortes de juros em 2026 serão poucos e diluídos no tempo, com foco na trajetória de serviços e expectativas. Por outro lado, uma nova aceleração na inflação pode adiar os cortes e aumentar a possibilidade de aperto adicional, especialmente se o mercado de trabalho continuar firme e os preços de energia não caírem rapidamente.
Um relatório do Itaú BBA desta semana alertou que, em decorrência do choque causado pela guerra no Oriente Médio, bancos centrais ao redor do mundo devem manter juros mais elevados por mais tempo. A dinâmica da inflação no Brasil e nos EUA nesta sexta-feira será crucial para avaliar os próximos passos da política monetária global.