Governo estuda liberar FGTS para quitar dívidas, mas economistas criticam medida como paliativa e arriscada
O alto endividamento das famílias brasileiras, que já afeta cerca de 80% delas, levou o governo a considerar o uso de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para auxiliar na quitação de débitos. A proposta, que pode movimentar cerca de R$ 7 bilhões e beneficiar 10 milhões de pessoas, visa integrar o Desenrola 2.0, programa de renegociação de dívidas.
A medida, no entanto, tem gerado preocupação entre especialistas. A avaliação predominante é que a liberação do FGTS para este fim é uma solução de curto prazo, incapaz de resolver o problema estrutural do endividamento, que está intrinsecamente ligado às altas taxas de juros, como a Selic, que permanece em patamares elevados.
Conforme informações divulgadas, a iniciativa de usar o FGTS para abater dívidas acende um alerta no meio econômico. Especialistas como Juliana Inhasz, professora de economia do Insper, e Tatiana Pinheiro, pesquisadora da FGV EESP, apontam que a medida pode esgotar a reserva de segurança do trabalhador e não garante o fim do ciclo de endividamento, além de poder impactar negativamente o setor imobiliário. A opinião geral, segundo Fábio Gallo, professor de Finanças da FGV-SP, é que a ação se assemelha a “enxugar gelo”, sem atacar as causas reais do problema.
O Risco de “Enxugar Gelo” em um Cenário de Juros Elevados
Especialistas alertam que utilizar o FGTS para pagar dívidas, em um cenário de juros altos, é como tentar resolver um problema estrutural com uma medida paliativa. Juliana Inhasz, do Insper, argumenta que a ação retira o “colchão” de segurança do trabalhador e apenas adia o problema, sem atacar as causas profundas do endividamento.
Tatiana Pinheiro, da FGV EESP, complementa que o dinheiro sacado pode ser consumido, gerando novas dívidas. Com juros de crédito de até 62% ao ano para famílias e 435,88% no rotativo do cartão de crédito, esse novo endividamento pode rapidamente levar à inadimplência novamente.
Flávio Ataliba, do FGV Ibre, compara a medida a “apagar incêndios pontuais”, pois não altera a estrutura de juros altos nem a dependência das famílias por linhas de crédito caras. Ele destaca que a dívida brasileira é um sintoma de problemas mais amplos, como o descontrole fiscal e a inflação, que levam a juros elevados como remédio amargo.
Impacto no Mercado Imobiliário e no Acesso à Moradia
A utilização do FGTS para quitação de dívidas também levanta preocupações sobre o futuro do mercado imobiliário. O fundo é uma das principais fontes de financiamento habitacional no Brasil, especialmente para programas como o Minha Casa, Minha Vida.
Segundo a Abrainc, o FGTS já auxiliou mais de 10 milhões de famílias a conquistar a casa própria e sustentou cerca de 2,3 milhões de empregos anuais no setor. Em 2025, o fundo financiou mais de 650 mil moradias, contribuindo significativamente para a redução do déficit habitacional.
Tatiana Pinheiro ressalta que a liberação do FGTS para dívidas pode restringir o crédito imobiliário no curto prazo, justamente em um momento em que o setor já opera com juros elevados. Luiz França, presidente da Abrainc, alerta que isso pode prejudicar a habitação e agravar o déficit habitacional, criando um problema social ainda maior.
A Raiz do Endividamento Brasileiro
Fábio Gallo, da FGV-SP, define a medida como “enxugar gelo” e compara a dívida brasileira a uma “febre” que necessita de diagnóstico preciso. Ele aponta que a raiz do problema está no descontrole da economia brasileira, com um grave problema fiscal que gera inflação.
Para combater a inflação, o Banco Central eleva os juros, o que, por sua vez, torna o crédito mais caro e difícil de pagar, levando ao endividamento das famílias. Essa dinâmica, segundo Gallo, demonstra a necessidade de soluções estruturais que abordem tanto a questão fiscal quanto os problemas socioculturais que levam ao consumo excessivo e à dependência de crédito caro.