Setor de Seguros em Alerta: Riscos Climáticos Criam “Vazio de Proteção” e Ameaçam Estabilidade Financeira
Fontes internas do próprio setor de seguros estão emitindo um alerta grave: o mercado não está preparado para os crescentes riscos físicos associados às mudanças climáticas. Um novo relatório, intitulado “Ligando o Sinal de Alerta”, aponta que a responsabilidade pelos danos materiais causados por eventos climáticos extremos recairá sobre outros, e não sobre as companhias de seguro.
A frequência, a gravidade e a imprevisibilidade dos desastres climáticos e ambientais estão aumentando de forma alarmante. Regiões costeiras, montanhosas, áreas propensas a enchentes e incêndios florestais, além de setores vitais como agricultura e transporte marítimo, enfrentam uma exposição e vulnerabilidade cada vez maiores.
O documento, divulgado pela Inside Track x (Re)Insurance, detalha como as seguradoras estão respondendo a essa realidade. A conclusão é preocupante: a lucratividade de curto prazo e o retorno aos acionistas estão sendo priorizados em detrimento da resiliência estratégica a longo prazo. Conforme informações divulgadas pela Inside Track x (Re)Insurance, o recado é direto: “outra pessoa” terá que arcar com os custos, pois “só não serão as companhias de seguro”.
A Estratégia de “Reajustar, Restringir e Cair Fora” das Seguradoras
O relatório descreve a tática das seguradoras em três frentes. Primeiramente, há um drástico reajuste nos preços das apólices, tornando o seguro inacessível para muitos e aprofundando a desigualdade econômica. Em seguida, as coberturas são restringidas, com exclusão de sinistros específicos como incêndios florestais e enchentes. Por fim, as empresas simplesmente “caem fora”, abandonando regiões inteiras e setores de alto risco, como o agronegócio.
O resultado dessa abordagem é um preocupante “vazio de proteção”. Prejuízos iminentes e perdas significativas ficam sem cobertura, deixando governos, contribuintes e a população em geral com o ônus financeiro.
Risco Sistêmico e Paralelos com a Crise do Subprime
Um alerta ainda mais grave é a possibilidade de um risco econômico sistêmico. A exigência de seguro residencial para financiamentos imobiliários pode desestabilizar o mercado de hipotecas, semelhante ao estouro da crise do subprime em 2008. O encarecimento de seguros em setores essenciais, como alimentação e construção, também pressiona o custo de vida e alimenta a inflação.
A cultura corporativa das seguradoras é apontada como parte do problema. Em vez de colaboração, há um fechamento em estratégias de curto prazo. Relatórios indicam que analistas e atuários estariam sendo orientados a “dar uma segurada nos números” ou “passar a tesoura” nas estimativas de risco para não assustar investidores e manter os negócios.
Pesquisas Confirmam o Cenário de Vulnerabilidade
Diversos estudos corroboram o diagnóstico do relatório. Uma pesquisa da Realtor.com revelou que mais de 23% das residências nos Estados Unidos enfrentam risco climático severo ou extremo, totalizando uma exposição de US$ 11,2 trilhões. O aumento nos prêmios de seguro já está expulsando famílias da cobertura e paralisando mercados imobiliários.
Uma análise da ICE (Intercontinental Exchange) aponta para uma “penalidade por risco climático/enchente”, onde imóveis em áreas de risco valorizam menos e apresentam maior risco de inadimplência. Estudos do Federal Reserve e pesquisas acadêmicas também destacam como crises no setor de seguros afetam todo o sistema financeiro, detonando orçamentos familiares e aumentando o risco de crédito.
Impactos nos EUA e o Papel dos Bancos
Nos Estados Unidos, as grandes seguradoras estão recusando renovações e novas apólices em zonas de alto risco, como Califórnia (incêndios) e estados litorâneos expostos a furacões e enchentes. A regulamentação mais restritiva em comparação com a Europa limita o ajuste de preços, levando as seguradoras a enxugar coberturas ou abandonar mercados.
Isso infla programas estatais de “seguradoras de última instância”, como a Citizens Property Insurance Corp. na Flórida. O setor de resseguros também enfrenta pressão, com aumento de taxas e endurecimento de contratos, elevando os custos para as seguradoras diretas.
Para os bancos, a turbulência no setor de seguros gera múltiplos impactos. Há risco de crédito aumentado caso seguradoras enfrentem perdas massivas, risco de contraparte em transações de derivativos e títulos, e perdas diretas em participações e ativos de seguradoras em seus portfólios. O efeito dominó no mercado imobiliário, com a dificuldade de obter financiamentos, também afeta diretamente os balanços bancários.