Depois de uma semana em casa, chegou a hora de voltar para a estrada. E vou ser sincera: mal deu tempo de descansar direito. Foi aquele período de resolver as coisas, arrumar o motor do caminhão e já começar a preparar tudo de novo para mais uma viagem longa.
Na vida de quem roda cerca de 30 dias por viagem, sair de casa não é simplesmente pegar a chave e ir. Tem toda uma logística por trás. Tem roupa para separar, comida para levar, caminhão para organizar, tanque para completar, corpo para aguentar o ritmo e cabeça para entrar de novo no modo estrada.
Foi assim que começou mais uma saída minha, ainda de madrugada, no frio do Sul, com muito café, vento gelado e aquele foco de chegar no carregamento no horário.
O dia começou às 5 da manhã e com 13 graus
Quando o despertador toca cedo desse jeito, principalmente depois de um tempo em casa, o corpo sente. E se já não é fácil sair da cama normalmente, imagina com 13 graus. Estava aquele friozinho típico de começo de inverno, e isso muda até a forma como a gente se prepara.
Antes de pensar em estrada, eu já começo cuidando do básico. Uma coisa que peguei o hábito de fazer todos os dias é hidratar bem a pele. No frio, ela resseca muito mais, então não adianta passar qualquer creme só por passar. Tem que ser um produto realmente hidratante.
Esse tipo de detalhe parece pequeno, mas na rotina de caminhoneira faz diferença. Quando a gente vai ficar muitos dias fora, tudo o que ajuda no conforto conta. A estrada já exige bastante por si só, então eu tento evitar desconfortos desnecessários.
Antes do café, chá e alguma coisa no estômago
Eu sou daquelas pessoas que demoram um pouco para despertar. De manhã cedo, antes do café, fico mais lenta mesmo. Só depois de um tempo é que vou entrando no pique.
Mas tem uma regra que eu sigo: não tomo café em jejum. Para quem tem problema de estômago, queimação ou azia, isso pode piorar bastante. Então eu prefiro fazer diferente.
Primeiro preparo um chá e deixo uns 10 minutos em infusão. Depois como alguma coisa. Só então vem o café com leite. Esse cuidado ajuda muito a começar o dia sem agredir o estômago.
Nesse dia, escolhi um dos meus preferidos da cidade: um pãozinho tipo rocambole com doce de leite e cobertura de glacê. É daqueles sabores simples que fazem falta quando a viagem é longa. Como eu fico em média 30 dias fora, aproveito essas pequenas coisas antes de partir, porque sei que depois vou passar um tempão sem encontrar de novo.
E claro, café tem seu papel. Além de dar aquela acordada, já faz parte da rotina de quem precisa enfrentar estrada cedo. Mas comigo funciona melhor assim:
- primeiro o chá,
- depois alguma comida,
- e só então o café.
Organizar mala para 30 dias exige método
Quando a viagem é longa, não dá para arrumar as coisas de qualquer jeito. Eu levo bastante coisa justamente para não precisar ficar comprando na estrada o tempo todo ou passar aperto com algo que poderia ter sido resolvido antes de sair.
Uma das formas que encontrei de facilitar meu dia a dia no caminhão foi separar as roupas por tipo de peça e por combinações. Isso ajuda demais quando estou no trecho e preciso me trocar rápido sem bagunçar tudo.
Eu costumo organizar mais ou menos assim:
- uma parte com shorts,
- outra com camisetas,
- outra com calças,
- outra com peças íntimas,
- e os looks já pensados conforme o clima.
Nesse dia, como a manhã começou fria mas depois foi esquentando conforme eu me movimentava, escolhi uma roupa mais leve para sair e deixei um moletom separado para usar no caminho, caso a temperatura caísse de novo.
Na prática, isso evita aquela confusão clássica de abrir bolsa, caixa, sacola e não achar nada. Na estrada, organização não é frescura. É funcionalidade.
Acertando os últimos detalhes dentro da cabine
Antes de pegar a BR, ainda fui ajeitando algumas coisas no caminhão. Como eu já tinha levado bastante item de casa, faltava só arrumar com calma o que estava fora do lugar.
Também gosto de colocar um paninho ou revestimento nas caixas e compartimentos. Acho melhor do que deixar tudo direto sobre a superfície. Fica mais bonito, mais limpo e mais prático para manter organizado.
Esses detalhes ajudam a deixar a cabine mais aconchegante. Quando o caminhão também é o lugar onde você passa boa parte dos dias, cozinha, guarda suas coisas e dorme, ele precisa funcionar quase como uma pequena casa sobre rodas.
Hora de ligar o caminhão e abastecer antes de sair
Depois de um tempo parado, sempre dá aquela impressão de que o caminhão vai fazer um barulho diferente quando liga. Às vezes é só coisa da nossa cabeça, mas a gente escuta tudo com atenção redobrada, ainda mais depois de ter enfrentado problema no motor.
Com ele funcionando, fui abastecer. Ainda tinha um pouco de diesel, mas eu prefiro sair já com tudo certo. Abasteço perto de casa, aproveito para passar no cartão e já sigo com menos preocupação.
Nessa saída, a ideia era completar o S10 e também o Arla, que já estava baixo. Eu sempre peço para abastecer até o limite certo, sem deixar derramar. Além de ser desperdício, ninguém merece diesel escorrendo ou caindo na estrada.
Também aproveitei para encher minha garrafinha de água. Como o clima estava frio, nem precisava deixar na geladeira. A própria temperatura já ajudava bastante.
Na estrada, o objetivo era rodar a manhã inteira
Com tudo abastecido, comecei de fato o deslocamento. O plano era simples: rodar até perto do meio-dia, parar, fazer alguma comida ali mesmo na caixa e depois seguir até o local do carregamento.
Eu já saí de casa pensando nisso porque tinha trazido os ingredientes necessários. Quando a gente se organiza, consegue comer melhor, economizar e manter a rotina mais equilibrada no trecho.
E nesse frio do Sul, a paisagem da manhã fica linda. Ao mesmo tempo, o clima exige mais do corpo. Teve momento em que esfriou tanto dentro da cabine que precisei ligar o ar quente. Era aquele frio cortante mesmo.
Almoço no trecho: omelete rápido, prático e nutritivo
Perto de meio-dia, parei num posto para preparar o almoço. A fome já estava batendo e, com o vento que fazia lá fora, eu não queria ficar andando pelo pátio. Estava gelado demais.
Escolhi fazer um omelete, que é uma das refeições que mais gosto de preparar na estrada. É rápido, sustenta bem e entrega o que o corpo precisa.
O preparo foi simples:
- ovos,
- queijo cottage,
- manteiga para a frigideira.
Em poucos minutos, a comida estava pronta. Esse tipo de refeição funciona muito bem para a rotina de caminhoneira porque junta praticidade e nutrição. Não precisa inventar demais. Às vezes o que resolve mesmo é algo simples, quente e bem feito.
Levar comida e preparar o próprio almoço no trecho também dá mais autonomia. Nem sempre a gente quer comer em lanchonete, ainda mais em dias de muito frio e vento, quando o mais confortável é ficar ali no próprio cantinho.
Os moradores silenciosos dos postos de estrada
Enquanto eu estava ali, apareceu um cachorrinho. E quem vive na estrada sabe que isso é muito comum. Em quase todo posto tem algum cãozinho que acabou ficando por ali. Muitos foram abandonados, mas acabam sendo acolhidos pelos funcionários e por quem passa.
Esse em especial tinha uma pata quebrada, dava para perceber no jeito de andar. Mas também era visível que estava bem cuidado e alimentado. Estava gordinho, com cara de morador antigo do posto.
É daquelas cenas que misturam dó e alívio ao mesmo tempo. A gente fica triste pela situação do animal, mas feliz de ver que pelo menos ele encontrou um lugar onde recebe cuidado e comida.
Lavar louça no frio é um desafio à parte
Depois do almoço, fui lavar a louça e quase me arrependi na hora. A água estava gelada num nível de congelar a mão. Nessas horas dá até vontade de pensar que talvez fosse melhor ter ido comer na lanchonete mesmo.
Mas faz parte da rotina. Cozinhar no trecho tem seus benefícios, só que também traz essas pequenas batalhas do dia a dia. E no inverno elas aparecem com mais força.
Última etapa do dia: chegar ao carregamento e garantir a vez
Com o almoço resolvido, segui viagem até o local de carregamento. O carregamento só seria no dia seguinte, então o objetivo daquele dia era chegar, entrar na fila e já marcar presença para esperar a vez.
Esse é um ponto importante da logística no transporte. Nem sempre se chega e carrega na mesma hora. Muitas vezes é preciso adiantar o deslocamento, dormir no local e aguardar. Faz parte do planejamento e do ritmo da profissão.
Quando cheguei, o sentimento foi de missão cumprida. Depois de uma manhã inteira na estrada, frio, organização, parada para almoço e mais alguns quilômetros de volante, eu já podia respirar mais tranquila. O caminhão estava no lugar certo e, no dia seguinte, era só esperar o carregamento.
Fim do dia: hora de colocar a casa em ordem sobre rodas
Como eu tinha ido só colocando as coisas no caminhão antes de sair, sem organizar de verdade, aproveitei a chegada ao carregamento para arrumar tudo com calma. Esse momento é importante porque, quando a viagem começa para valer, cada item precisa estar no seu lugar.
É ali que a cabine deixa de ser apenas um veículo e volta a virar minha rotina. Roupas, comida, utensílios, água, cobertas, tudo precisa estar ajeitado para que os próximos dias fluam melhor.
E assim terminou o primeiro dia de volta ao trecho: com frio, cansaço, omelete no almoço, tanque cheio e a sensação de que o trabalho tinha recomeçado de verdade.
O que essa rotina mostra sobre a vida na estrada
Muita gente pensa apenas no volante quando imagina a vida de uma caminhoneira. Mas a rotina real envolve muito mais do que dirigir. Envolve preparação, disciplina, adaptação ao clima, cuidado com a alimentação, organização da cabine, gestão do tempo e bastante resistência.
Antes mesmo de o caminhão entrar na rodovia, já existe uma sequência inteira de decisões e tarefas acontecendo. E talvez seja justamente isso que muita gente não vê: a estrada começa dentro de casa, no momento em que a pessoa acorda e começa a se arrumar para partir.
No fim das contas, essa saída resume bem o que é viver nessa profissão. A saudade de casa ainda fresca, o corpo tentando pegar ritmo, o frio apertando, os boletos lembrando que a vida segue, e a estrada chamando de novo.