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Quimioembolização no SUS: Avanço promissor, mas acesso desigual expõe falhas na saúde pública

Avanço da quimioembolização no SUS contrasta com acesso desigual em cinco estados

O Sistema Único de Saúde (SUS) registrou um total de 13.599 internações para a realização de quimioembolização de carcinoma hepático entre 2015 e 2025. Este procedimento, que utiliza um cateter para levar o tratamento diretamente aos vasos que irrigam tumores no fígado, representa um avanço significativo no combate à doença.

No entanto, um levantamento realizado pela CNN Brasil a partir de dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS) revela uma profunda desigualdade no acesso a essa terapia. A concentração de procedimentos em determinadas regiões, estados e hospitais levanta sérias preocupações sobre a equidade no sistema de saúde brasileiro.

A disparidade é gritante: cinco estados concentraram 74% de todas as internações nacionais para quimioembolização no período analisado. Enquanto isso, outras regiões, como a Norte, registraram números ínfimos, com pacientes precisando se deslocar de seus estados para ter acesso ao tratamento. Conforme informação divulgada pela CNN Brasil, essa concentração expõe as falhas na distribuição de especialistas e infraestruturas de alta complexidade no país.

Cinco estados concentram 74% das internações de quimioembolização

São Paulo lidera o ranking de internações para quimioembolização no SUS, com 5.274 procedimentos entre 2015 e 2025, o que representa 38,8% do total nacional. Em seguida, aparecem Rio Grande do Sul (2.025 internações, 14,9%), Minas Gerais (1.079 internações, 7,9%), Pernambuco (912 internações, 6,7%) e Paraná (776 internações, 5,7%). Juntos, esses cinco estados somam 10.066 internações, demonstrando uma clara concentração de recursos e especialização.

Lucas Moretti Monsignore, presidente da Sociedade Brasileira de Radiologia Intervencionista e Cirurgia Endovascular (SOBRICE), explica que essa concentração reflete a distribuição atual da radiologia intervencionista no Brasil, assim como a concentração de grandes centros hospitalares, serviços de oncologia, equipes de transplante e infraestrutura de alta complexidade. Ele aponta que o Brasil possui pouco mais de 500 radiologistas intervencionistas, com quase metade concentrada em São Paulo, enquanto outros estados contam com poucos ou nenhum profissional atuando de forma estruturada.

Região Norte registra apenas 30 internações em 11 anos

A disparidade regional fica ainda mais evidente ao analisar a distribuição por regiões. O Sudeste responde por 52% dos registros, seguido pelo Sul (23,7%) e Nordeste (21,9%). O Centro-Oeste representa 2,3%, e a Região Norte, apenas 0,2%. No período de 2015 a 2025, a Região Norte realizou apenas 30 internações em seu território: Rondônia (20), Pará (8), Roraima (1) e Tocantins (1). Acre, Amazonas e Amapá não registraram nenhuma internação com quimioembolização como procedimento principal.

Monsignore destaca que essa diferença regional impõe uma barreira significativa de acesso. As grandes distâncias, dificuldades de transporte, custos para as famílias e a necessidade de permanência em outras cidades são fatores que impedem muitos pacientes de completarem o tratamento. Ele sugere a criação de centros macrorregionais, financiamento adequado, transporte sanitário e fluxos formais entre os estados para mitigar esse problema.

Pacientes de estados com pouca oferta precisam se deslocar

A análise por local de residência revela que muitos pacientes precisam buscar tratamento fora de seu estado de origem. Moradores do Acre, Amazonas e Amapá, por exemplo, somaram 65 internações, todas realizadas em outras unidades da Federação, já que seus estados não possuem registros do procedimento. Minas Gerais teve 1.079 internações por local de atendimento e 1.230 por residência, uma diferença de 151. Em Goiás, foram 25 realizadas diante de 109 entre moradores. Esse deslocamento, embora represente uma solução para alguns, evidencia uma importante barreira de acesso.

O oncologista Ramon Andrade de Mello, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia, reforça a desigualdade na distribuição da assistência, especialmente na Região Norte, e ressalta que os dados agregados não permitem determinar o motivo específico de cada deslocamento. Ele explica que a quimioembolização é uma técnica minimamente invasiva que concentra o tratamento na região do tumor, podendo ser indicada para pacientes com câncer primário de fígado ou lesões metastáticas, e também para controle da doença enquanto aguardam transplante.

Estrutura necessária vai além do equipamento

A realização da quimioembolização exige uma estrutura complexa que vai além da simples presença de um aparelho angiográfico. É fundamental contar com radiologistas intervencionistas, anestesiologistas, equipe de enfermagem e radiologia, farmácia especializada em medicamentos quimioterápicos e agentes embolizantes, além de estrutura de internação e capacidade para lidar com possíveis complicações. Uma equipe multidisciplinar é essencial para definir a adequação do procedimento e sua integração ao plano terapêutico geral.

Monsignore enfatiza que não basta adquirir um equipamento, é preciso criar uma estrutura assistencial, técnica e administrativa que garanta a indicação correta, a execução segura e o acompanhamento adequado. Os obstáculos à expansão incluem a falta de equipamentos, centros dedicados, profissionais qualificados, materiais específicos, financiamento e a integração com a rede oncológica. A falta de insumos, em particular, é um limitador frequente em hospitais públicos, mesmo quando a equipe médica está disponível.

Procedimento cresceu 34,7% no período, mas ainda é insuficiente

O número anual de internações para quimioembolização apresentou um crescimento de 34,7% entre 2015 e 2025, passando de 968 para 1.304. Após uma queda em 2020, devido à pandemia de Covid-19, a produção voltou a crescer, atingindo o pico em 2024 com 1.528 internações. Para Monsignore, apesar da evolução positiva, os números ainda são insuficientes diante da dimensão do país e da incidência do câncer hepático.

O Ministério da Saúde, por meio do programa Agora Tem Especialistas e outras iniciativas como o Caminhos da Saúde e o Super Centro Brasil de Diagnóstico para o Câncer, afirma estar ampliando a estrutura de atendimento oncológico do SUS. A pasta informa que conta com 319 estabelecimentos habilitados para assistência oncológica em todo o país. No entanto, os dados apresentados pela CNN Brasil indicam que os desafios para garantir o acesso equitativo à quimioembolização ainda são consideráveis.

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