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Quênia e EUA avançam com centro de quarentena para Ebola, apesar das controvérsias

O governo do Quênia está seguindo adiante com os planos de estabelecer um centro de quarentena e tratamento para o Ebola, em uma instalação militar e em parceria com os Estados Unidos. A decisão surge após um tribunal queniano ter emitido uma liminar temporária contra o acordo no início da semana.

A instalação tem como objetivo atender americanos potencialmente expostos ao vírus na República Democrática do Congo (RDC), localizada a mais de 2.400 quilômetros de distância. É importante ressaltar que o Quênia não registrou nenhum caso de Ebola até o momento.

Conforme divulgado pelo Ministério da Saúde do Quênia neste sábado (30), a iniciativa visa fortalecer a capacidade de monitoramento, isolamento e resposta a emergências. Além disso, outros centros de isolamento e tratamento serão instalados em locais como o Hospital Nacional Kenyatta, em Nairóbi, e o Hospital da Polícia Nacional do Quênia.

Americana Equipe Chega ao Quênia para Gerenciar Instalação de Ebola

Uma fonte do governo dos EUA, envolvida na resposta ao Ebola, informou à CNN que americanos responsáveis pela gestão da instalação já desembarcaram na Base Aérea de Laikipia. Esta base, situada a cerca de 200 quilômetros ao norte da capital queniana, Nairóbi, será o local da unidade.

A parceria entre os Estados Unidos e o Quênia, segundo o Ministério da Saúde, reforça a vigilância, a capacidade de diagnóstico, os exercícios de preparação para emergências, o fornecimento de materiais médicos essenciais e a capacidade de resposta rápida. Essa medida ocorre após o Secretário de Estado americano ter prometido que os EUA não permitiriam a entrada do Ebola no país.

A promessa americana gerou forte oposição da sociedade civil queniana, que protestou contra um aparente “duplo padrão”. O surto de Ebola na República Democrática do Congo, declarado em 15 de maio, é considerado o mais rápido e já é responsável por pelo menos 238 mortes e mais de 1.000 infecções suspeitas.

Risco de Contágio e Críticas à Parceria EUA-Quênia

O surto é causado pela cepa Bundibugyo, uma forma rara do vírus Ebola para a qual não há vacina ou tratamento aprovado. A doença também se espalhou para Uganda, país vizinho do Quênia e da RDC, onde causou uma morte e pelo menos sete casos confirmados.

O plano dos EUA de instalar um centro de tratamento para o Ebola no Quênia, destinado a cidadãos americanos, foi criticado por médicos quenianos e funcionários do CDC. A medida foi contestada judicialmente pelo Instituto Katiba, um grupo da sociedade civil focado em questões constitucionais no Quênia.

Na noite de quinta-feira, a juíza do Tribunal Superior, Patricia Nyaundi, proibiu o Quênia de estabelecer ou operar qualquer instalação relacionada ao Ebola sob acordos com os EUA ou outros governos estrangeiros, e de admitir no país qualquer pessoa exposta ou infectada pelo vírus até a resolução do processo judicial, agendado para retornar ao tribunal em 2 de junho.

Instalações de Última Geração e Controvérsias Locais

Autoridades americanas descreveram a instalação proposta como “de última geração”, projetada para oferecer cuidados de alta qualidade a americanos que precisassem sair rapidamente da RDC e cumprir quarentena sem os riscos de um longo transporte de volta aos EUA. Recentemente, um médico americano que testou positivo para Ebola na RDC foi evacuado para a Alemanha, e outro cidadão americano de alto risco foi transferido para a República Tcheca.

Um alto funcionário do governo Trump afirmou que os EUA receberam aprovação do governo queniano para uma unidade de quarentena com 50 leitos, que deveria entrar em operação na sexta-feira (29). Pacientes que desenvolverem sintomas ou testarem positivo seriam transferidos para outras instalações.

Um porta-voz do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA (HHS) informou que uma equipe de oficiais altamente treinados do Serviço de Saúde Pública dos EUA está sendo enviada ao Quênia para apoiar o atendimento, monitoramento e quarentena de cidadãos americanos que deixam a RDC. A equipe inclui médicos, enfermeiros, técnicos de laboratório e profissionais de saúde mental, alguns com experiência anterior no combate ao Ebola na Libéria.

Preocupações com a Escolha do Quênia e o Futuro da Parceria

Ainda não está claro se a unidade planejada atenderá pacientes de outras nacionalidades, uma falta de clareza que tem gerado preocupação entre os quenianos. O plano surge em um momento em que o Quênia e os EUA renegociaram o financiamento da ajuda para esforços de saúde quenianos.

A proposta enfrentou oposição do principal sindicato de médicos do Quênia e da Ordem dos Advogados, que alertaram para o risco de importar o Ebola para o país. Dr. Davji Bhimji Atellah, secretário-geral do Sindicato dos Médicos, questionou a transparência do governo queniano e a lógica de localizar a unidade no Quênia, dado o sistema de saúde já sobrecarregado do país.

“Não ficaremos de braços cruzados enquanto o Quênia é tratado como uma colônia de contenção para um patógeno letal que não criamos”, declarou Atellah. “Se é muito perigoso para os Estados Unidos, é muito perigoso para o Quênia”, acrescentou.

Casos Suspeitos de Ebola Fora da Zona de Surto

Casos suspeitos de Ebola também estão sendo investigados em outros países. No Brasil, um homem de 37 anos que viajou para a RDC está sendo tratado em isolamento em São Paulo. Na Índia, duas pessoas que retornaram da África testaram negativo para o vírus. Na Itália, dois casos suspeitos após viagens de Uganda também foram descartados.

A Cruz Vermelha alertou que Ruanda, Quênia, Tanzânia, Angola, Burundi, República Centro-Africana, República do Congo, Etiópia, Sudão do Sul e Zâmbia estão em risco, apesar de casos confirmados terem sido relatados apenas na RDC.

By Ana Clara Martins

Ana Clara Martins é jornalista e redatora especializada em cultura pop, entretenimento e tendências digitais. Atua há mais de 5 anos na produção de conteúdo para blogs, portais e redes sociais, sempre com foco em engajamento e credibilidade.