O Caminho das Palavras Rumo ao Reconhecimento Oficial: Da Fala ao Vocabulário da Língua Portuguesa
Você já se perguntou como uma expressão popular, como o famoso “mi-mi-mi”, pode um dia ser encontrada em um dicionário oficial? A língua portuguesa, em constante evolução, recebe novas palavras e expressões diariamente. Mas o que determina quais delas ganharão um lugar de destaque no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp), mantido pela Academia Brasileira de Letras (ABL)?
A jornada de uma nova palavra para o reconhecimento oficial é um processo complexo e meticuloso. Não basta que um termo seja amplamente utilizado em conversas informais. A Academia Brasileira de Letras, por meio de seu Observatório Lexical, avalia a frequência, a circulação e a relevância de novas expressões para determinar sua potencial inclusão no Volp, que funciona como um retrato da ortografia do idioma.
Diferentemente de um dicionário comum, o Volp foca em registrar palavras que se consolidam no uso, abrangendo diversos domínios do conhecimento. A fonte da informação é a própria ABL, que detalha os critérios e o tempo de avaliação. Mas, afinal, quais os critérios e quais outras palavras estão na fila para entrar para o vocabulário oficial?
O Critério Fundamental: O Uso Coletivizado das Palavras
A Academia Brasileira de Letras enfatiza que o principal fator para o reconhecimento de uma nova palavra é o seu uso coletivizado. Isso significa que a expressão precisa ter ultrapassado o círculo restrito de um grupo específico e estar amplamente disseminada na sociedade. Gírias de nicho ou termos recém-inventados, sem circulação significativa, tendem a não ser considerados para registro no Volp.
O trabalho dos lexicógrafos da ABL envolve uma pesquisa aprofundada. Eles analisam a origem e a formação do vocábulo, sua classificação gramatical, o grau de sua circulação na língua funcional, a diversidade de fontes onde aparece, seu alcance geográfico e seus significados. É um estudo detalhado para garantir a precisão e a representatividade da palavra.
Da Expressão Popular ao Registro Oficial: Exemplos de Inclusão
O processo de inclusão de novas palavras no Volp pode variar significativamente em tempo. Em casos raros, termos surgidos recentemente, como “covid-19”, foram incorporados com agilidade, refletindo a urgência e a ubiquidade do fenômeno. Por outro lado, palavras mais antigas, mas cujo uso se generalizou tardiamente, também podem ser registradas.
Um exemplo notável é a palavra “gentrificação”, que circula desde a década de 1970. Ela só foi adicionada ao Volp em 2022, após o fenômeno que ela descreve se tornar mais proeminente e discutido em todo o país. Isso demonstra que a ABL acompanha não apenas a criação de novas palavras, mas também a consolidação do uso de termos já existentes.
Palavras em Espera: O Que Pode Entrar no Volp em Breve?
Não há um prazo fixo para a decisão de incluir uma palavra no Volp. A ABL ressalta que o trabalho lexicográfico é realizado por profissionais humanos, e o ritmo natural da pesquisa, coleta e análise de cada termo dita o tempo necessário para a decisão final. Atualmente, diversas palavras e expressões estão em avaliação e podem compor futuras atualizações do vocabulário.
Entre os termos que aguardam para possivelmente serem incorporados ao Volp, destacam-se: “cordelteca” (biblioteca especializada em literatura de cordel), “disania” (dificuldade extrema de se levantar ao acordar), “enredista” (quem desenvolve o enredo de uma escola de samba), “marmitório” (local onde se preparam, servem ou consomem marmitas), “mi-mi-mi” (reclamação chorosa e vitimista), “microssono” (breve episódio de sono), “ordinarista” (quem detém ações ordinárias de uma sociedade anônima), “parditude” (condição de quem é pardo), “pesquisável” (em que se pode fazer pesquisa), “policrise” (sucessão de crises interligadas), “preferencialista” (acionista que detém ações preferenciais), “reclinio” (ação de reclinar ou ângulo de inclinação) e “refilável” (que se pode reabastecer com refil). A inclusão dessas palavras demonstrará o dinamismo da língua portuguesa e sua capacidade de adaptar-se às novas realidades e usos.