Janet Yellen alerta para nova era econômica marcada por choques contínuos, superando a pandemia como principal fator de instabilidade.
A economia global entrou em uma fase de instabilidade sem precedentes, onde a pandemia de Covid-19 cedeu lugar a uma sequência contínua de choques. Essa é a visão da ex-secretária do Tesouro dos Estados Unidos, Janet Yellen, que detalha como eventos sobrepostos estão remodelando as perspectivas para inflação, crescimento e investimentos.
Diferentemente do passado, quando turbulências econômicas eram vistas como eventos isolados, Yellen aponta para uma dinâmica atual onde tensões comerciais, riscos geopolíticos e avanços tecnológicos interagem de forma simultânea. Essa complexidade torna a previsão da inflação e a atuação dos bancos centrais significativamente mais desafiadoras.
Em entrevista à Forbes Brasil, Yellen identificou três forças principais que impulsionam essa nova configuração da economia mundial. Conforme informação divulgada pela Forbes Money, essas forças estão redefinindo o ambiente econômico global, exigindo novas estratégias de governos, empresas e investidores.
1. Protecionismo e Fragmentação do Comércio Elevam Custos Globais
O primeiro grande choque identificado por Yellen é o retorno do protecionismo e a consequente fragmentação do comércio internacional. A imposição de tarifas de importação, como as vistas nos Estados Unidos, não é vista apenas como uma disputa bilateral, mas como um fator capaz de aumentar os custos em toda a cadeia produtiva global.
Yellen expressou ceticismo sobre a eficácia das tarifas para reduzir déficits comerciais, afirmando que a maioria dos economistas não as considera uma solução viável. Na prática, essas barreiras tendem a encarecer produtos importados, aumentar despesas para empresas e consumidores, e dificultar o controle da inflação.
Essa mudança na política comercial ocorre em um momento delicado, quando empresas ainda buscam reorganizar suas cadeias de suprimentos após os impactos da pandemia, adicionando mais incertezas ao cenário econômico global.
2. Petróleo Continua Sendo um Risco Inflacionário Persistente
A energia, especialmente o petróleo, permanece como um risco significativo para a inflação, mesmo com a desaceleração observada desde os picos de 2022. Yellen alertou que uma nova alta expressiva no preço do barril de petróleo, que poderia retornar à faixa de US$ 100, teria um impacto relevante sobre os preços em geral.
O impacto do petróleo vai além dos combustíveis, influenciando custos de transporte, logística, produção industrial e até mesmo o preço dos alimentos. Essa abrangência torna o petróleo um canal de transmissão inflacionária para praticamente toda a economia.
Para os bancos centrais, choques de energia representam um desafio particular. Ao contrário da inflação causada pelo excesso de demanda, a alta nos preços do petróleo pode reduzir a capacidade da política monetária de conter os aumentos de preços apenas através do aumento das taxas de juros.
3. Inteligência Artificial e a Pressão Inicial sobre Preços
Paradoxalmente, a inteligência artificial (IA), tecnologia associada ao aumento de produtividade, também pode gerar pressões inflacionárias no curto prazo. Yellen destacou que a construção de data centers, a expansão da infraestrutura elétrica e a demanda por semicondutores exigem investimentos bilionários.
Esses investimentos impulsionam o consumo de energia e equipamentos, pressionando preços em diversos setores. Segundo Yellen, os ganhos de eficiência prometidos pela IA ainda não são amplamente visíveis para compensar essa mobilização inicial de capital físico e energético.
Essa perspectiva contrasta com a narrativa predominante de que a IA seria imediatamente desinflacionária. A realidade atual, segundo a economista, é que a tecnologia demanda uma **enorme mobilização de recursos** antes de gerar economias significativas.
Um Cenário Econômico Mais Complexo e Imprevisível
As três forças apontadas por Janet Yellen – protecionismo, riscos energéticos e o impacto inicial da IA – têm origens distintas, mas um ponto em comum: atuam sobre a oferta da economia, elevando custos e tornando a inflação mais resistente. Essa combinação explica as dificuldades enfrentadas pelos bancos centrais para retornar a inflação às suas metas, mesmo após ciclos agressivos de alta de juros.
A análise de Yellen sugere que a economia global entrou em uma nova fase. Se antes o desafio era gerenciar ciclos econômicos previsíveis, agora o cenário é moldado por fatores que se retroalimentam, como disputas comerciais, riscos geopolíticos, energia e transformação tecnológica. Esses choques, mais do que eventos passageiros, definem o ambiente econômico para os próximos anos.