Ebola chega ao Quênia após viagem de paciente vindo do Congo, acendendo alerta máximo em saúde global
O Quênia, que se preparou intensamente por meses para a chegada do Ebola, confirmou seu primeiro caso importado da doença. Um homem vindo da República Democrática do Congo (RDC) viajou por terra e ar, passando por Uganda, e só apresentou sintomas graves ao chegar em Nairóbi, capital queniana.
O paciente, que estava doente há semanas, passou por triagens de saúde em aeroportos de Uganda e do Quênia sem ser detectado. Seu quadro evoluiu com febre, calafrios, fadiga intensa, dores musculares e sangramento sob a pele. Médicos o isolaram e confirmaram a infecção pelo vírus Bundibugyo, uma variante do Ebola.
Este caso acende um alerta sobre a rápida disseminação do vírus, que já assola a RDC, o maior surto da história do país. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica como alto o risco para países vizinhos. As informações são da CNN e do Ministério da Saúde do Quênia.
Falhas na Triagem Sanitária e Rotas Informais Preocupam Autoridades
A trajetória do homem infectado evidencia os desafios no controle de fronteiras. Ele viajou por terra da RDC para Uganda e, de lá, pegou um voo para Nairóbi. Apesar das triagens sanitárias em aeroportos, ele não foi identificado como caso suspeito. O Ministério da Saúde do Quênia confirmou que ele passou por uma “triagem padrão de saúde pública” no Aeroporto Internacional Jomo Kenyatta.
A Organização Internacional para as Migrações (OIM) destaca que o fluxo de pessoas entre a RDC e países vizinhos é intenso e nem sempre ocorre por postos de fronteira oficiais. Muitas pessoas utilizam rotas informais, de difícil monitoramento, o que aumenta o risco de viajantes infectados não serem detectados.
Oyewale Tomori, ex-virologista regional da OMS para a África, descreveu a triagem nas fronteiras como “usar uma rede de gol de futebol para capturar um mosquito”, ressaltando sua ineficácia isolada. Christian Happi, professor de biologia molecular na Universidade Redeemer, na Nigéria, concorda, afirmando que a medição de temperatura pode falhar em detectar um infectado sem febre no momento da triagem.
Maior Surto da RDC e o Risco de Propagação Regional
O surto na República Democrática do Congo é o maior já registrado, com 8.728 casos confirmados e 4.205 mortes até a última quarta-feira (30), segundo a OMS. A transmissão permanece intensa em sete províncias, e o risco para os países fronteiriços é considerado alto.
Uganda já registrou 20 casos, e a França teve um caso importado. Agora, o Quênia se torna o quarto país a confirmar a presença do vírus Bundibugyo. A OMS não recomenda restrições amplas de viagem ou comércio com áreas afetadas, mas enfatiza a necessidade de vigilância.
Tomori alerta que o caso queniano é um “alerta para mais casos no futuro”, pois a África é “um campo aberto, dividido em países por fronteiras porosas e com vigilância insuficiente”.
Medidas de Contenção e a Urgência da Detecção Rápida
No Quênia, as autoridades de saúde estão empenhadas em identificar todos os possíveis expostos e prevenir novas transmissões, além de intensificar a triagem no aeroporto de Nairóbi. Um segundo paciente, de 20 anos, que viajou da RDC via Uganda, testou negativo para Ebola.
A detecção rápida é crucial, pois não há vacina licenciada nem tratamento específico aprovado para esta variante do Ebola, embora pesquisas estejam em andamento. A experiência da Nigéria em 2014, onde um caso importado em Lagos resultou em 20 casos e oito mortes antes da contenção, serve de lição.
Christian Happi reforça que “não será fácil detectar todas as pessoas que cruzam as fronteiras”. O que realmente importa, segundo ele, é a rapidez com que os países detectam e contêm os casos importados para evitar uma propagação maior.
O que fazer para evitar a disseminação global do Ebola
Especialistas defendem medidas mais rigorosas, como a exigência de testes negativos para Ebola antes do embarque de voos vindos de áreas de risco, indo além das recomendações atuais da OMS. A capacidade de testagem rápida nos aeroportos também é fundamental.
A OMS sugere que casos suspeitos, prováveis ou confirmados, bem como contatos com risco de exposição, não realizem viagens internacionais, exceto em situações de retirada médica. O monitoramento comunitário, testes rápidos e rastreamento de contatos são essenciais para identificar precocemente casos importados e conter a doença.
O caso no Quênia reforça a necessidade de cooperação internacional e de sistemas de vigilância robustos para lidar com ameaças de doenças infecciosas em um mundo cada vez mais conectado.
