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Crise do Endividamento no Brasil: Famílias Presas em Ciclo Vicioso de Dívidas e Juros Altos, Alertam Especialistas

Brasil enfrenta recorde de endividamento familiar, com 80,4% das famílias endividadas e 27,5 milhões com nome negativado.

O Brasil vive um momento crítico de endividamento, com dados alarmantes da Confederação Nacional do Comércio (CNC) revelando que 80,4% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida. Paralelamente, cerca de 27,5 milhões de pessoas estão com o nome sujo, incapazes de honrar seus compromissos financeiros. Este cenário desafiador ocorre mesmo em um período de aumento de renda e baixos índices de desemprego.

Apesar da aparente melhora em alguns indicadores, aproximadamente 30% da renda familiar é direcionada ao pagamento de dívidas. Esse peso se torna ainda mais insustentável diante de uma taxa básica de juros, a Selic, em 14,75% e juros reais de 9,51%, posicionando o Brasil entre os países com os juros mais altos do mundo, atrás apenas da Turquia. A facilidade de acesso ao crédito no pós-pandemia, com recordes de concessão em 2025, contribuiu para a expansão do endividamento.

O elevado custo do crédito, combinado com o alto nível de endividamento, gera um efeito cascata difícil de conter. Especialistas do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) identificam esse fenômeno como uma “retroalimentação” da dívida, onde o crédito se torna um dos principais vilões da saúde financeira das famílias. Conforme informações divulgadas pela FGV Ibre, o crédito para famílias é significativamente mais caro.

Crédito Bancário Caro e Cartão de Crédito: A Dupla Vilã do Endividamento Familiar

Economistas da FGV Ibre, como Flávio Ataliba Barreto, Pedro Avelino e João Mário Santos de França, apontam que, embora o crédito agregado no Brasil esteja em expansão, essa expansão é desigual para as famílias. Enquanto grandes empresas e o setor público se beneficiam de financiamentos mais baratos via mercado de capitais, as famílias permanecem reféns do crédito bancário tradicional, com taxas que podem atingir cerca de 62% ao ano. Essa disparidade acentua a vulnerabilidade financeira.

O problema se agrava drasticamente com o crédito rotativo do cartão de crédito. Quando o consumidor não quita a fatura integralmente, o saldo é transferido com juros exorbitantes, gerando um efeito de “bola de neve”. Segundo o Banco Central, essas taxas podem ultrapassar os 400% ao ano, tendo chegado a 435,9% em fevereiro de 2026. Atualmente, o gasto com cartão de crédito consome 54% do orçamento familiar, com 6,3% da renda sendo destinada apenas ao pagamento de juros.

“Trata-se de uma das linhas mais caras do sistema financeiro, contribuindo de forma decisiva para a elevação do custo médio do crédito às famílias”, alertam os analistas da FGV Ibre. Essa dinâmica torna o pagamento da dívida progressivamente mais difícil, resultando em uma inadimplência no cartão de crédito rotativo que já alcança 64%.

Fatores Estruturais e a Necessidade de Políticas Públicas

A análise da FGV Ibre ressalta que a taxa Selic elevada não é o único motor do alto custo do crédito. Outros fatores como o custo de captação dos bancos, a própria inadimplência, despesas administrativas, tributos, contribuições ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e as margens de lucro das instituições financeiras também influenciam o preço final. Em suma, a eficiência da intermediação financeira no Brasil é um componente crucial.

A inadimplência, em particular, desempenha um papel central nesse ciclo de retroalimentação. Seu aumento eleva o risco das operações, pressionando ainda mais as taxas de juros. Essa dinâmica revela que o alto custo do crédito e o endividamento familiar possuem um caráter estrutural e desigual, perpetuando a dificuldade de as famílias acessarem crédito de forma saudável.

Diante deste cenário complexo, os analistas da FGV Ibre defendem uma agenda de políticas públicas com duas frentes. A primeira visa reduzir o custo do crédito e melhorar sua qualidade, incentivando a migração para linhas mais baratas e fortalecendo mecanismos de prevenção ao superendividamento. A segunda frente foca na construção de trajetórias fiscais críveis e no controle da inflação, um desafio que se mostra persistente.

Inflação e Juros Altos: Um Ciclo Perigoso para a Economia Familiar

O controle da inflação é um pilar fundamental para a estabilidade econômica e a redução dos juros. No entanto, dados recentes indicam pressões inflacionárias, como o IPCA de março, que subiu 0,88%, acima do esperado, impulsionado pelo chamado “efeito guerra”. Este resultado já afeta as expectativas para a política monetária, com alta probabilidade de nova pressão inflacionária em abril, segundo André Braz, economista do FGV Ibre.

Se a inflação persistir elevada, o Banco Central pode ser forçado a manter os juros altos por mais tempo. A previsão do Boletim Focus já aponta para uma inflação de 3,80% em 2027, acima do centro da meta. Juros reais mais baixos são, segundo os analistas, condições essenciais para um sistema de crédito mais equilibrado e para aliviar o peso do endividamento sobre as famílias brasileiras.