B3 quer atrair pequenas mineradoras para financiar projetos no Brasil e reduzir dependência de bolsas estrangeiras
A B3, a bolsa de valores brasileira, anunciou um plano ambicioso para atrair pequenas mineradoras e empresas que desenvolvem projetos minerais em fases iniciais. O objetivo é oferecer uma alternativa de financiamento local, diminuindo a necessidade dessas companhias de buscar capital em bolsas no exterior, como as do Canadá e da Austrália.
A iniciativa, sinalizada pela diretora de Listagem e Relacionamento da B3, Flávia Mouta, durante um encontro do setor mineral em São Paulo, reconhece uma lacuna no mercado brasileiro. Atualmente, a bolsa tem forte relacionamento com grandes mineradoras, mas busca expandir essa conexão para empresas menores, especialmente aquelas que ainda não iniciaram a produção comercial.
Este movimento surge em um momento de crescente investimento em minerais críticos no Brasil, como terras raras, lítio e cobre. Muitas dessas empresas, conhecidas como junior mining companies, especializam-se em pesquisa e desenvolvimento de depósitos minerais e dependem de captações sucessivas para financiar seus estudos geológicos, perfurações e testes de processamento. Conforme informação divulgada pela ADIMB, estima-se que mais de 100 empresas do setor mineral brasileiro estejam listadas em bolsas estrangeiras.
Mercados Canadense e Australiano como Referência em Financiamento Mineral
As bolsas de Toronto, no Canadá, e de Sydney, na Austrália, consolidaram-se como importantes centros de financiamento para a mineração global, incluindo projetos localizados no Brasil. A Toronto Stock Exchange (TSX) e a TSX Venture Exchange (TSXV) possuem regras específicas para empresas de exploração mineral, facilitando o acesso a investidores interessados em projetos de maior risco, mesmo sem produção comercial. O Canadá também oferece incentivos tributários, como o mecanismo de “flow-through shares”, que transfere deduções fiscais aos investidores.
Na Austrália, a Australian Securities Exchange (ASX) também reúne investidores especializados e permite captação de recursos antes mesmo da construção de minas. Embora o programa Junior Minerals Exploration Incentive tenha encerrado em junho de 2025, o país mantém outros incentivos, como deduções fiscais para despesas de exploração e créditos para P&D. Esse modelo de financiamento permite que companhias levantem recursos gradualmente, à medida que comprovam o potencial de seus projetos, como exemplificado por empresas como a Viridis Mining and Minerals e a St George Mining (com projetos de terras raras em Minas Gerais) e a Lithium Ionic (com projeto de lítio em Minas Gerais).
B3 Explora Modelos Internacionais e Possibilidades de Financiamento
Flávia Mouta destacou que a B3 está aprofundando conversas com bolsas internacionais especializadas em mineração para entender seus modelos e identificar alternativas para o mercado brasileiro. A diretora ressaltou que o financiamento não se limita à emissão de ações, pois a B3 possui infraestrutura para operações de dívida e negociação de BDRs (Brazilian Depositary Receipts).
Apesar do anúncio de aproximação, a B3 ainda não apresentou instrumentos específicos de financiamento para o setor mineral nem estabeleceu um cronograma para sua implementação. O debate sobre incentivos para o setor também ocorre no Congresso Nacional, com o Projeto de Lei 4.975, que propõe a criação de uma classe específica de ações, as APEM (Ações de Pesquisa Mineral), para financiar a exploração mineral, oferecendo benefícios tributários aos investidores. Contudo, o projeto ainda aguarda avanços nas comissões da Câmara dos Deputados.
Oportunidades para “Junior Mining Companies” no Mercado Brasileiro
A atração de pequenas mineradoras pela B3 pode representar uma nova e promissora oportunidade para o setor de mineração brasileiro. Ao oferecer um ambiente mais acessível e possivelmente com incentivos adaptados, a bolsa brasileira visa reter e desenvolver capital local para a exploração de recursos minerais estratégicos.
A iniciativa da B3 busca espelhar o sucesso de mercados como o canadense e o australiano, que souberam criar mecanismos eficientes para financiar a exploração mineral em seus estágios iniciais. A expectativa é que, com essa aproximação, mais empresas brasileiras possam desenvolver seus projetos sem a necessidade de recorrer exclusivamente a mercados estrangeiros, fortalecendo a economia e a cadeia de suprimentos de minerais críticos no país.