O paradoxo da desconfiança no agronegócio brasileiro e seus reflexos na política e economia nacional, comparado a cenário similar nos EUA.
Nos Estados Unidos, um fenômeno intrigante se desenrola: estados agrícolas do meio oeste, que deram vitória expressiva a Donald Trump em eleições passadas, demonstram um ceticismo crescente em relação à sua política econômica. Apesar de Trump ter obtido uma vantagem nacional de apenas 1,5%, nesses redutos rurais, a margem foi quase de 30 pontos percentuais. O mais surpreendente é que, nacionalmente, 60% dos republicanos aprovam a gestão econômica de Trump, mas entre os eleitores rurais, essa aprovação cai para 32%, com 68% desaprovando, mesmo com bilhões em ajuda emergencial.
Este cenário de aparente contradição econômica e política ecoa no Brasil. Governos historicamente associados à esquerda têm ampliado recursos para o Plano Safra, fortalecido financiamentos privados e expandido garantias de crédito, além de acelerar a abertura de mercados internacionais. O agronegócio brasileiro, como resultado, tem batido recordes de produção, exportação e geração de divisas. No entanto, uma parcela significativa de produtores rurais mantém uma postura de profunda resistência política ao próprio governo.
Se os interesses econômicos fossem o único motor das preferências políticas, seria natural esperar uma aproximação entre o setor agropecuário e os governos que o favorecem. Afinal, poucas atividades econômicas receberam tanta atenção política quanto o agronegócio nos últimos 20 anos. Contudo, a realidade brasileira, assim como a americana, aponta para o contrário, revelando um dos fenômenos políticos mais impactantes de nosso tempo, conforme informações levantadas em análise de conteúdo especializado.
A Identidade Agro: Mais que Economia, uma Visão de Mundo
Por décadas, a premissa era que grupos sociais apoiariam governos que favorecessem seus interesses econômicos. Empresários apoiariam políticas pró-negócios, trabalhadores, aquelas que ampliassem renda e emprego, e produtores rurais, iniciativas que fortalecessem o setor agropecuário. A realidade, porém, tornou-se mais complexa, exigindo uma análise mais profunda.
O agronegócio brasileiro representa cerca de um quarto da economia nacional, quase metade das exportações e uma parcela crescente da riqueza em centenas de municípios. Volumes de crédito rural atingiram patamares históricos, novos instrumentos de financiamento privado se consolidaram e a diplomacia agrícola abriu dezenas de mercados internacionais. Os resultados econômicos são inegáveis, com o setor sendo crucial para o saldo comercial, a entrada de divisas e a estabilidade macroeconômica do país, mesmo em meio a altas taxas de juros e crises globais.
No entanto, essa pujança econômica não se converte automaticamente em apoio político. A explicação mais simples, a polarização ideológica, é insuficiente. O que está em jogo é a **confiança**. Ao longo das últimas duas décadas, o agronegócio brasileiro forjou uma identidade forte, associada ao empreendedorismo, inovação, produtividade, meritocracia, propriedade privada e inserção global. Em muitas regiões, o agro transcendeu a atividade econômica para se tornar uma visão de mundo.
A Desconfiança Mútua: Um Obstáculo para o Desenvolvimento
Nesse contexto, decisões políticas são influenciadas por fatores que vão além de crédito e mercados. Questões como segurança jurídica, direito de propriedade, legislação ambiental, demarcação de terras, costumes, religião e o papel do Estado ganham relevância equivalente ou superior aos resultados econômicos. Isso faz com que benefícios econômicos não garantam mais apoio político automático.
Um segundo paradoxo, menos discutido, reside na desconfiança que parte das elites políticas, financeiras e intelectuais brasileiras parece nutrir em relação ao agronegócio. Persiste em certos segmentos urbanos uma visão estereotipada, que ignora a profunda transformação tecnológica, empresarial e ambiental do setor. Ignora-se a eficiência dos sistemas agrícolas brasileiros, o papel da pesquisa tropical, da inovação genética e da agricultura de precisão, bem como a crescente integração entre produção e sustentabilidade.
O resultado é uma incompreensão mútua. De um lado, produtores que enxergam ameaças mesmo diante de apoio concreto. De outro, setores políticos que percebem privilégios onde há ganhos reais de competitividade. Ambos reforçam suas narrativas e alimentam suas desconfianças, aprofundando a distância.
O Mundo em Reorganização e o Brasil Preso na Desconfiança
O que esse fenômeno revela é a transformação da política contemporânea. Se no século XX resultados econômicos construíam legitimidade política, hoje isso não ocorre mais. Governos podem expandir crédito e estimular crescimento sem conquistar confiança, pois ela passou a depender de previsibilidade, coerência, reconhecimento e pertencimento, elementos mais difíceis de construir.
Enquanto o Brasil se debate em disputas internas entre Estado e setor produtivo, o mundo avança. Os Estados Unidos subsidiam sua indústria e protegem sua agricultura. A União Europeia combina apoio produtivo com exigências ambientais. China e Índia integram segurança alimentar, política industrial e geopolítica em estratégias nacionais de longo prazo. As grandes potências compreendem que seus setores estratégicos devem ser incorporados a projetos nacionais, não tratados como adversários.
A Urgência de Construir Consensos Nacionais
O Brasil, por outro lado, oscila entre cooperação econômica e desconfiança política. A questão central não é por que um governo de esquerda não conquista o apoio do agronegócio, ou vice-versa. A pergunta mais relevante é como um país tão dependente de sua capacidade de produzir alimentos, energia e soluções ambientais ainda não conseguiu construir uma visão compartilhada sobre um de seus maiores ativos estratégicos.
O maior risco para o Brasil não é a falta de crédito, mercados ou tecnologia, mas sim a incapacidade de transformar vantagens econômicas em consensos nacionais mínimos. Em um mundo cada vez mais marcado pela competição geopolítica, disputa por recursos naturais e segurança alimentar, países que alinham Estado, sociedade e setores estratégicos ampliam sua influência. O Brasil, preso à polarização, desperdiça oportunidades.
O agronegócio brasileiro, assim como o americano, continua a produzir riqueza em escala global. A dúvida reside em saber se o Brasil conseguirá produzir, na mesma escala, algo ainda mais valioso: **confiança**. Enquanto os Estados Unidos perdem essa confiança em escala global, o Brasil tem uma oportunidade única de reconstruí-la internamente, transformando suas vantagens econômicas em consensos nacionais duradouros.