Especialista da UFF aponta riscos para aliança EUA-Israel em meio a negociações com o Irã
As conversas entre Estados Unidos e Irã para um possível acordo avançam, mas um especialista em relações internacionais alerta para as consequências dessa aproximação. Vitelio Brustolin, pesquisador de Harvard e professor da UFF, explica que um memorando de entendimento pode abrir espaço para a diplomacia, mas também criar um racha na relação histórica entre EUA e Israel.
O cenário no Oriente Médio é de alta complexidade, com negociações sensíveis e conflitos regionais em ebulição. Enquanto Donald Trump demonstra otimismo sobre um acordo, o chanceler iraniano mantém cautela. Essa dinâmica levanta questões sobre a estabilidade da região e os próximos passos diplomáticos de potências globais.
O pesquisador Vitelio Brustolin detalhou, em entrevista à CNN, como o acordo em discussão pode funcionar como um primeiro passo para aliviar tensões, mas adia questões cruciais. A forma como essa aproximação será conduzida pode ter reflexos diretos na confiança e na cooperação entre Washington e Tel Aviv, impactando a segurança regional.
Memorando de Entendimento foca na abertura do Estreito de Ormuz e adia temas sensíveis
Um dos pontos centrais das negociações, segundo Brustolin, é um memorando que visa facilitar a navegação no Estreito de Ormuz. Esta medida, no entanto, funcionaria como uma forma de adiar discussões mais profundas sobre o programa nuclear iraniano e outras questões de segurança.
Questões cruciais como os 441 quilos de urânio enriquecido a 60% em posse do Irã permanecem sem definição. Brustolin ressalta que esse teor de enriquecimento não tem finalidade civil, pois programas pacíficos utilizam um limite de 20% para fins medicinais. Além disso, outras 11 toneladas de urânio com diferentes níveis de enriquecimento, o programa de mísseis e o financiamento de grupos como Hezbollah, Hamas e Houthis são pontos sem resolução.
Descongelamento de ativos iranianos como moeda de troca e intensificação no Líbano
Os Estados Unidos utilizam o descongelamento de aproximadamente US$ 24 bilhões em ativos iranianos como um ponto de pressão. Brustolin explica que a liberação desses fundos está condicionada ao cumprimento dos termos acordados pelo Irã, uma vez que a economia iraniana enfrenta dificuldades e necessita desses recursos.
Paralelamente, as forças israelenses intensificaram ofensivas no sul do Líbano, região controlada pelo Hezbollah. Os bombardeios resultaram em mortes e destruição de infraestruturas, com a ONU alertando para o risco de deslocamento forçado, crime contra a humanidade. Nem Israel nem o Hezbollah participam das negociações, o que aumenta a instabilidade.
Tensões na relação EUA-Israel e o cenário político interno de Netanyahu
A possível aproximação entre EUA e Irã lança uma sombra sobre a histórica parceria entre Estados Unidos e Israel. Brustolin aponta que a relação, que inclui transferências anuais de US$ 3,8 bilhões em ajuda militar e fornecimento de aeronaves como F-35 e F-15I, pode ser prejudicada.
O especialista também mencionou declarações públicas de Donald Trump que teriam criticado Benjamin Netanyahu, chamando-o de “louco” e afirmando que ele “estaria preso” sem o apoio americano. Essa dinâmica pessoal pode afetar a relação institucional.
O contexto político interno de Netanyahu, que enfrenta acusações de corrupção e busca reeleição, pode influenciar sua postura na ofensiva contra o Hezbollah. Para Brustolin, a parceria estratégica entre EUA e Israel é fundamental para ambos os países, e um rompimento seria prejudicial para os interesses americanos na região.