Brasil Importa Menos Trigo em Agosto, Contudo, Dependência Externa Pode Aumentar com Qualidade da Safra Nacional em Risco
As importações brasileiras de trigo registraram uma queda em agosto, refletindo o avanço da colheita no país. No entanto, análises indicam que essa redução é pontual e a tendência de longo prazo aponta para uma crescente dependência do mercado externo, em virtude de fatores como a qualidade da produção nacional e a redução da área plantada.
O volume importado em agosto foi de 515,6 mil toneladas, uma diminuição de 20,7% em relação a julho. Contudo, quando comparado ao mesmo período do ano anterior, o número é 4,8% superior. Essa oscilação é considerada um ajuste sazonal, conforme explica Lucilio Alves, pesquisador do Cepea e professor da Esalq/USP, devido à entrada da safra brasileira no mercado.
Apesar da menor necessidade de importação neste momento, a oferta doméstica de trigo de alta qualidade permanece restrita. Isso mantém o Brasil dependente do suprimento internacional e exerce pressão sobre os preços. A redução na área plantada para a safra atual, motivada por preços baixos no início do ano e o receio dos efeitos do El Niño, contribui para esse cenário, conforme apontam especialistas.
Safra Nacional Enfrenta Desafios Climáticos e de Qualidade
A qualidade da safra de trigo em andamento é um dos principais pontos de preocupação. No Cerrado, as lavouras de sequeiro já foram colhidas, mas apresentaram um padrão de qualidade insatisfatório, afetadas pelo calor e pela estiagem durante o plantio. As lavouras irrigadas na região oferecem uma expectativa de melhor qualidade, mas a produção geral da área é limitada.
No Paraná, um dos maiores produtores nacionais junto com o Rio Grande do Sul, a colheita avança, mas a qualidade também vem sendo motivo de desânimo. A doença fúngica conhecida como “brusone”, favorecida por um inverno mais ameno, e as chuvas recentes sobre lavouras prontas para a colheita prejudicaram o grão, resultando em perda de qualidade. “Chuva na lavoura de trigo pronto para colheita é perda de qualidade”, reforça Élcio Bento, especialista em mercado de trigo e analista da consultoria Safras & Mercado.
Projeções Indicam Recorde de Importação para a Nova Temporada
As projeções para a temporada 2026/27, que se inicia em setembro, indicam um aumento expressivo na necessidade de importação de trigo. A estimativa aponta para uma demanda entre 8,5 milhões e 9 milhões de toneladas, um salto considerável em relação aos cerca de 6,5 milhões de toneladas importadas na temporada anterior, o que representaria um novo recorde para o país.
O levantamento mais recente da Conab projetava a importação de 7,103 milhões de toneladas, um aumento de 4% em relação à projeção de julho. Esse volume já seria o maior registrado pelo Brasil nas últimas duas décadas, evidenciando a crescente dependência externa do cereal. A redução de 20% na área plantada, somada a um possível El Niño mais intenso que o do ano anterior, reforça essa tendência.
Redução da Área Plantada e Impactos do El Niño Agravam Cenário
A decisão de reduzir a área plantada com trigo na safra atual foi uma resposta dos produtores aos preços baixos observados no início do ano e ao temor de perdas devido às condições climáticas. O trigo é uma cultura sensível, e eventos como chuvas intensas podem causar perdas rápidas, o que, combinado a margens apertadas, levou à diminuição do cultivo.
O especialista Élcio Bento alerta para a possibilidade de repetição do cenário de 2023/24, quando o El Niño causou a perda de 85% da qualidade da safra de trigo no Rio Grande do Sul. Naquele ano, a produção nacional caiu significativamente, e apenas uma fração do trigo colhido possuía qualidade para ser transformado em farinha. A expectativa de um El Niño mais forte nesta temporada agrava ainda mais o quadro, elevando a dependência do país em relação à produção externa de trigo.
