Brasil tem chance única de se tornar protagonista na economia verde com terras raras, mas precisa de estratégia clara
As terras raras, antes restritas a círculos técnicos, ganharam os holofotes globais como insumos essenciais para a transição energética e tecnologias digitais. O Brasil, com sua vasta diversidade geológica, detém um potencial expressivo para se destacar nesse mercado estratégico, conforme aponta Márcia Abrahão, especialista na área.
Transformar essa oportunidade em um projeto nacional robusto demanda mais do que a simples existência de reservas. É fundamental investir em ciência, planejamento e instituições públicas fortes, articuladas com o setor produtivo e com regras claras. A afirmação é de Márcia Abrahão, ex-reitora da UnB e especialista em depósitos minerais ricos em terras raras, em artigo publicado recentemente.
A geóloga ressalta que o país já viveu momentos em que decisões de curto prazo interromperam programas estratégicos, como no caso de insumos para vacinas, e que essa história não pode se repetir com as terras raras. A busca por parcerias internacionais, como a recente com a Índia, sinaliza uma ambição de ir além da exportação de matéria-prima, visando processamento, inovação e valor agregado.
Minerais Críticos: A Base da Tecnologia Moderna
O termo “terras raras” engloba 17 elementos químicos cruciais para a fabricação de ímãs de alto desempenho, essenciais para motores de veículos elétricos e turbinas eólicas. Além disso, suas aplicações se estendem a equipamentos de defesa, smartphones, equipamentos médicos e lasers. A disputa por esses minerais, classificados como minerais críticos, reflete a busca global por segurança e autonomia tecnológica.
Esses minerais são vitais para a infraestrutura material da economia contemporânea, permitindo a digitalização, a automação industrial e sistemas complexos de defesa. O valor estratégico das terras raras reside não apenas na extração, mas na capacidade de processamento, separação e transformação, etapas que agregam tecnologia e riqueza à cadeia produtiva.
Potencial Brasileiro e os Desafios a Superar
O Brasil possui uma diversidade geológica extraordinária, com ocorrências de terras raras conhecidas em diversas regiões. A matriz energética limpa do país também representa uma vantagem competitiva para a instalação de toda a cadeia de produção, contribuindo para a redução de emissões de gases de efeito estufa. Goiás desponta como um estado com projetos em andamento nesse setor.
No entanto, o país ainda enfrenta desafios significativos em conhecimento geológico e maturidade da cadeia produtiva. É necessário avançar no mapeamento e na pesquisa aplicada, fortalecendo instituições como o Serviço Geológico do Brasil, que necessita de mais recursos e pessoal para atuar em um país continental.
Muitas reservas de terras raras apresentam dificuldades de exploração e desafios tecnológicos. Depósitos em argilas de absorção iônica, associados a intemperismo de rochas em climas favoráveis, têm impulsionado a competitividade em países como a China, especialmente no fornecimento de terras raras pesadas.
Estratégia Nacional e Cooperação Internacional
A especialista Márcia Abrahão defende que a criação de uma nova empresa para resolver o tema das terras raras pode ser um atalho para a inércia. O Brasil já conta com instituições com funções definidas, como o Serviço Geológico, a Agência Nacional de Mineração e centros tecnológicos. O foco deve ser em financiar, integrar e dar escala ao que já existe, em colaboração com o setor privado.
A recente iniciativa do Presidente Lula em incluir cláusulas específicas no Acordo Mercosul-União Europeia e o memorando de entendimento com a Índia para cooperação em minerais críticos são passos importantes. A parceria com a Índia, uma potência tecnológica do Sul Global, sinaliza a ambição de atrair processamento, inovação e valor agregado, com transferência tecnológica e inserção soberana nas cadeias globais.
Um Futuro Sustentável e Soberano
O Brasil não pode repetir um modelo extrativista de alto impacto e baixo retorno social e ambiental. O país deve usar seus diferenciais, como o respeito a biomas e comunidades, boas práticas de mineração, uso de energia limpa e padrões rigorosos de controle. Em um mundo que exige descarbonização, cadeias limpas e transparência, essa postura pode ser uma vantagem competitiva real.
Terras raras não são moda, mas um tema de Estado. Exigem ciência, continuidade, instituições fortalecidas, política industrial e diplomacia ativa. O desafio agora é transformar a oportunidade em um projeto nacional com conhecimento, planejamento e coragem, garantindo a soberania e a responsabilidade social e ambiental que o século 21 exige, para que o Brasil se torne um protagonista na nova economia.