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Terapia vira moda: psicólogo alerta sobre superficialidade e “performance” da saúde mental nas redes sociais

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Saúde mental ganha espaço, mas superficialidade é risco

A conversa sobre saúde mental deixou os consultórios e invadiu bares, redes sociais e rodas de amigos. Termos como “gatilho”, “trauma” e “responsabilidade afetiva” se tornaram comuns no dia a dia, indicando uma importante redução de estigmas e um acesso mais amplo a discussões sobre bem-estar emocional.

No entanto, essa popularização traz consigo desafios. O psicólogo Jair Soares dos Santos, fundador do Instituto Brasileiro de Formação de Terapeutas (IBFT), alerta para os perigos da “estetização” do sofrimento, onde conceitos profundos podem se tornar superficiais e genéricos.

A análise do especialista, baseada também na Terapia de Reprocessamento Generativo (TRG), sugere que a exposição pública de dores, embora possa gerar conexão, não substitui o processo terapêutico de elaboração profunda. Conforme informação divulgada pelo IBFT, a terapia é um compromisso com a transformação, não apenas uma performance emocional.

Por que falamos tanto de nós mesmos em qualquer lugar?

As mudanças nos códigos sociais criaram ambientes informais onde a vulnerabilidade se torna um elo de pertencimento. Em conversas em bares, por exemplo, a troca de experiências não visa necessariamente a cura, mas a conexão humana. A fragilidade compartilhada cria um senso de comunidade.

Jair Soares dos Santos explica que, nesses contextos, o que muitas vezes é compartilhado é uma “vulnerabilidade narrada, não processada”. Ou seja, as histórias são contadas, mas o impacto emocional e as memórias gravadas no corpo e no sistema emocional não são totalmente acessados ou elaborados.

A Terapia de Reprocessamento Generativo (TRG) reconhece o valor dessas trocas para diminuir a solidão, mas reforça que elas não substituem o trabalho terapêutico. Conversar conecta, mas a terapia é o caminho para a transformação genuína e profunda das emoções.

Autocuidado pop: entre o mito e a fuga

O conceito de autocuidado, tão em voga, muitas vezes é romantizado. Um equívoco comum é acreditar que cuidar de si é sempre algo leve e prazeroso. Na realidade, o autocuidado envolve enfrentar desconfortos, revisitar memórias dolorosas, identificar padrões de comportamento, romper com vínculos prejudiciais e estabelecer limites que podem ser difíceis.

Outro mito é o da autossuficiência. Muitas dores têm origem em relações interpessoais e, por isso, não podem ser completamente resolvidas isoladamente. O suporte profissional se torna essencial quando a própria mente cria mecanismos de defesa que impedem o acesso ao cerne da dor.

Há também a confusão entre autocuidado e fuga. Evitar o que causa dor não é cuidado, mas sim uma forma de anestesia. A TRG propõe o caminho oposto: olhar diretamente para as experiências que marcaram o sistema emocional, permitindo que a dor seja reorganizada e ressignificada.

Emoção como identidade: o risco da cristalização

A transformação da vida emocional em conteúdo para redes sociais é outro fenômeno marcante. Desabafos se tornam posts, e relatos viram vídeos, configurando a emoção como uma forma de construir e organizar a identidade. Quem sofreu se apresenta como sobrevivente, quem superou dores se vê como resiliente.

O perigo reside na possibilidade de se cristalizar no papel da própria ferida. A TRG diferencia o ato de expressar uma emoção de estar aprisionado a ela. Mesmo que a dor seja verbalizada publicamente, isso não garante que ela foi internamente elaborada e curada.

A necessidade de testemunho e validação é legítima, pois ninguém deseja sofrer sozinho. Contudo, o desafio, segundo Jair Soares dos Santos, é que essa validação venha mais da própria reorganização emocional interna do que da aprovação externa. A cura real acontece no contato íntimo consigo mesmo, e não na audiência.