Soja e Milho: Margens Apertadas em 2027, Mas Brasil Supera EUA em Vantagem Competitiva e Rentabilidade Agrícola
As margens de lucro para produtores de soja e milho no Brasil devem permanecer sob pressão em 2027. O aumento nos custos de produção e as dificuldades financeiras no campo são os principais vilões, embora a situação brasileira ainda se mostre mais favorável em comparação com outros grandes mercados agrícolas globais.
O cenário desafiador é impulsionado pelo encarecimento de insumos essenciais, como fertilizantes e defensivos agrícolas. Apesar da oferta abundante de commodities, a rentabilidade global dos grãos deve ter uma recuperação lenta e desigual, segundo um relatório do banco holandês Rabobank.
O levantamento do Rabobank, assinado pelo analista Bruno Fonseca, destaca que, mesmo com as pressões, a combinação dos resultados da soja e do milho continua sustentando a rentabilidade operacional das propriedades brasileiras. No entanto, o endividamento e os custos de financiamento representam obstáculos significativos para os agricultores.
Custos de Produção em Alta: Fertilizantes e Defensivos Pressionam Margens
A próxima safra brasileira, 2026/27, deve registrar um aumento nos custos operacionais. Para o milho, a projeção é de uma alta de 11%, impulsionada principalmente por despesas maiores com fertilizantes e inseticidas. Já para a soja, o aumento previsto é mais moderado, em torno de 4%.
Esses cálculos do Rabobank consideram custos selecionados de produção, como fertilizantes, defensivos, sementes e combustíveis. Custos com terra, financiamento ou subsídios governamentais não estão incluídos na análise.
As tensões geopolíticas no Oriente Médio continuam a pressionar os preços dos fertilizantes nitrogenados. Adicionalmente, restrições de oferta e preços mais elevados do enxofre afetam o mercado de fertilizantes fosfatados, elevando os gastos dos produtores.
Brasil Mantém Vantagem Competitiva Frente aos Estados Unidos
A análise do Rabobank aponta que o mercado brasileiro de soja deve manter uma situação operacional mais favorável do que o norte-americano. Nos Estados Unidos, a diferença entre o preço de venda da soja e os custos operacionais tem se mantido próxima de mínimas históricas nas últimas safras.
No Brasil, essa relação, calculada em dólares por bushel, recuou do pico de 2022 e retornou à média histórica, patamar que deve se manter em 2027. Para o milho, a situação nos EUA é ainda mais delicada, com margens operacionais previstas em queda pelo segundo ano consecutivo, podendo resultar em rentabilidade negativa quando todas as despesas são consideradas.
Essa comparação reforça a posição relativamente mais vantajosa do Brasil no cenário global, mas não elimina os riscos financeiros que os agricultores brasileiros enfrentam, especialmente relacionados ao custo do financiamento.
Oferta Global Abundante e Clima Incerto Limitam Recuperação de Preços
A perspectiva de custos maiores para os produtores ocorre em um mercado internacional com ampla disponibilidade de grãos e oleaginosas. Embora preocupações climáticas e geopolíticas possam gerar altas pontuais nos preços, o Rabobank não espera uma valorização sustentada das commodities que compense totalmente o aumento das despesas nas lavouras.
A produção mundial de grãos e oleaginosas deve atingir um dos maiores volumes já registrados. Contudo, a redução na relação entre estoques e consumo de milho aumenta a sensibilidade do mercado a problemas de oferta. A previsão de um novo episódio de El Niño para 2027 adiciona incerteza às condições de produção.
No mercado de fertilizantes, as incertezas sobre os fluxos de exportação de importantes fornecedores de nitrogenados persistem. A volta da China ao mercado exportador de nitrogênio oferece algum alívio, mas não deve compensar integralmente as interrupções de oferta. A ausência chinesa nas exportações de fosfatados, somada a restrições de oferta e preços elevados do enxofre, mantém esses produtos sob pressão.
Recuperação da Rentabilidade Agrícola Global Deve Ser Desigual em 2027
O cenário global aponta para uma recuperação limitada da rentabilidade agrícola em 2027. Agricultores em diversos países, incluindo Argentina e Europa, enfrentam desafios específicos, como alta carga tributária, custos elevados de insumos e frete, e a necessidade de ajustar a oferta à demanda.
Na Argentina, embora a soja possa apresentar melhora nas margens, o milho sofre com o aumento das despesas com fertilizantes. Na Europa, as margens devem atingir o ponto mais baixo em 2026, com recuperação apenas no ano seguinte, caso as produtividades voltem aos níveis médios. Na Austrália, custos elevados com fertilizantes, diesel e frete devem continuar comprimindo a rentabilidade.
Em resumo, o Rabobank projeta que a recuperação das margens agrícolas em 2027 continuará “atrasada e desigual” em nível mundial, exigindo dos produtores brasileiros estratégias eficientes para navegar em um ambiente de custos elevados e incertezas de mercado.