Ra’am pode ser o fiel da balança nas eleições de Israel, influenciando o futuro governo e a oposição a Netanyahu.
O cenário político de Israel está em ebulição com as próximas eleições, e um nome tem ganhado destaque: o partido Ra’am. Também conhecido como Lista Árabe Unida, este partido muçulmano árabe, sob a liderança de Mansour Abbas, concentra seus esforços em garantir direitos para a significativa população árabe que reside em Israel. Seus assentos no parlamento, o Knesset, podem ser cruciais para definir os próximos rumos do país.
Os árabes constituem 21% da população israelense, um contingente de aproximadamente dois milhões de pessoas. Embora a maioria possua cidadania israelense, uma parcela considerável em Jerusalém Oriental detém o status de “residente permanente”, o que limita o acesso a direitos plenos. Essa realidade social e política é o pano de fundo para a ascensão do Ra’am.
Em 2022, o Ra’am conquistou cinco assentos no Knesset, marcando um feito histórico ao se tornar o primeiro partido árabe a participar ativamente de um governo em Israel. A sigla integrou a coalizão liderada por Naftali Bennett e Yair Lapid entre junho de 2021 e dezembro de 2022. Agora, nas eleições atuais, o partido se posiciona como um potencial aliado para a oposição, que busca superar o governo de Benjamin Netanyahu. Conforme pesquisa do Channel 13 News, o partido Yashar, de Gadi Eisenkot, principal opositor de Netanyahu, projeta até 54 cadeiras, enquanto o Likud, partido de Netanyahu, deve cair de 64 para 50 assentos. Essa projeção, no entanto, não garante a maioria parlamentar de 61 cadeiras para a oposição, tornando o Ra’am um parceiro estratégico.
O Dilema da Aliança com o Ra’am
Para Danny Zahreddine, professor de Relações Internacionais da PUC Minas, a participação do Ra’am é essencial para a viabilização de um futuro governo de oposição. Contudo, ele aponta um obstáculo significativo: “Como o Ra’am tem projeção de conseguir até cinco cadeiras, torna-se peça essencial para viabilizar qualquer futuro governo. Mas o dilema enfrentado pelos partidos israelenses judaicos, como o partido de Eisenkot, é que, após os ataques do Hamas em outubro de 2023, existe um grande receio na opinião pública de formar coalizões com partidos árabes, sendo visto por setores conservadores e de extrema-direita como um ato de traição”, explica o professor.
Estratégias de Integração e Pragmatismo
O Ra’am tem buscado se afastar de uma postura estritamente religiosa para se integrar à política israelense e assegurar mais direitos para a população árabe. Revita Poleg, ex-diplomata israelense e colaboradora do Instituto Brasil-Israel (IBI), afirma que, “embora mantenha raízes islâmicas conservadoras, o partido prioriza a participação política para obter recursos públicos, melhorar os serviços à população e combater a crescente criminalidade na comunidade árabe”.
Uma medida notável para aumentar sua aceitação foi a inclusão de Yoav Segalovitz, um policial israelense aposentado e judeu sionista, como número dois do partido nas eleições. Segalovitz, ex-alto oficial de segurança, defende uma parceria entre as comunidades judaica e árabe para construir uma nova política no país. Poleg esclarece que essa integração é uma aliança estritamente político-técnica, com o acordo visando preservar a autonomia das duas partes.
Posicionamento em Questões Sensíveis
Apesar de suas manobras pragmáticas, o Ra’am ainda enfrenta resistência. O partido tem demonstrado contenção em declarações sobre a criação de um Estado palestino, um tema considerado tabu na sociedade israelense. No entanto, o Ra’am defende a criação de um Estado palestino e a desocupação da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, reconhecendo a Autoridade Palestina como interlocutora oficial nas negociações com Israel.
Prioridades e Condições para Coalizão
Karina Calandrin, professora de Relações Internacionais do Ibmec-SP, destaca que, diferentemente de outros partidos árabes, o Ra’am vê a participação em coalizões governamentais como um meio eficaz para conquistar direitos e recursos para a comunidade árabe. As prioridades incluem mais recursos públicos, melhoria de serviços e combate à criminalidade.
A sigla tem se mostrado favorável às exigências dos blocos israelenses, incluindo o reconhecimento de Israel como Estado judeu. Em dezembro de 2021, o líder do partido, Mansour Abbas, declarou: “O Estado de Israel nasceu como um Estado judeu. Essa foi a decisão do povo, e a questão não é qual a identidade do Estado. Ele nasceu assim e assim permanecerá”. Esse reconhecimento é uma das quatro condições impostas por Gadi Eisenkot para uma possível coalizão, que incluem o compromisso com a Declaração de Independência, a prestação de serviço militar ou civil, e o reconhecimento do Hamas como organização terrorista.
Apesar do posicionamento do Ra’am, Eisenkot indicou que o partido ainda não atende a todos os critérios. “Gadi Eisenkot já declarou publicamente que não pretende incluir o Ra’am em seu governo nas condições atuais”, ressalta Calandrin. Ainda assim, uma aliança que resulte em apoio parlamentar sem participação formal no governo não está descartada, conforme avaliação do ex-embaixador israelense Ilan Sztulman Starosta. O Ra’am poderia apoiar um governo de Eisenkot em troca de concessões, especialmente no combate à criminalidade.
Outros Partidos Árabes e o Cenário Futuro
Além do Ra’am, outros partidos árabes concorrem nas eleições, como a Lista Conjunta, formada pelos partidos Hadash, Ta’al e Balad. O Ra’am integrou essa lista até 2021, quando se desvinculou para adotar uma postura mais pragmática. A Lista Conjunta, mesmo sem o Ra’am, manteve relevância, conquistando seis cadeiras em março de 2021. Atualmente, Hadash e Ta’al concorrem juntos, sem o Balad.
O analista internacional Lourival Sant’anna avalia que, tanto o Ra’am quanto a Lista Conjunta, provavelmente apoiarão a formação de um governo de oposição liderado por Eisenkot, mas sem participação direta. Se Netanyahu permanecer no poder, a tendência é que os partidos árabes continuem sem integrar o governo.
