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Produtor Rural na “Pior Conta dos Últimos 20 Anos”: Juros Altos e Fertilizantes Caros Afundam Lucratividade no Brasil

Produtor Rural Enfrenta Crise Sem Precedentes: Custos Disparam e Inadimplência Ameaça o Setor

O cenário para o produtor rural brasileiro é, segundo Marcelo Altieri, presidente da Yara Brasil, o pior dos últimos 20 anos. Sem uma recuperação nos preços dos grãos, a recomposição das margens de lucro se torna um desafio hercúleo. A situação, que afeta toda a agroindústria, é agravada pela pressão da taxa de juros real, estimada em 24%, que dificulta o cumprimento de compromissos financeiros.

O custo do arrendamento de terras, que já se aproxima desse percentual, agrava a situação para quem não possui propriedade própria. Paralelamente, o acesso ao crédito está mais restrito, com bancos e revendas limitando financiamentos e operações devido ao aumento de recuperações judiciais no setor. Esse cenário complexo é impulsionado, em grande parte, pelo aumento dos custos de produção, especialmente no segmento de fertilizantes.

A escassez de oferta e a elevação dos preços dos fertilizantes são os principais vilões. Conforme informações divulgadas pelo CNN Agro, a Índia registrou ofertas de ureia a US$ 943 por tonelada, um salto expressivo em comparação aos cerca de US$ 505 antes do conflito no Oriente Médio. A China, por sua vez, mantém a suspensão de exportações de fertilizantes até agosto, intensificando a pressão sobre os preços globais.

“Tormenta Perfeita” de Custos e Oferta Limitada

Marcelo Altieri descreve a conjuntura atual como uma “tormenta perfeita”, combinando demanda enfraquecida, oferta restrita e preços elevados. Ele destaca que a maior parte da produção global de fertilizantes se concentra no Hemisfério Norte, enquanto o Brasil, principal mercado do Hemisfério Sul, tem demandas em períodos distintos. Essa dinâmica, segundo ele, dificulta a sustentação de iniciativas como o Plano Nacional de Fertilizantes, pois a ausência de demanda contínua reduz a viabilidade de investimentos estruturais a longo prazo.

Guerras e Dependência Externa: O Dilema da Produção Nacional

As incertezas geradas pelos conflitos na Rússia, Ucrânia e Oriente Médio reacendem o debate sobre a produção nacional de fertilizantes. Altieri aponta que o Brasil carece de infraestrutura flexível para receber matéria-prima e estimular a fabricação em larga escala, com “falta de capacidade na ponta para abastecer mercados”. A dependência externa se torna um fator crítico em momentos de instabilidade global, evidenciando a fragilidade da cadeia produtiva brasileira.

Yara Brasil Adapta-se e Cumpre Compromissos em Meio à Crise

Apesar do cenário adverso, a Yara Brasil afirma que conseguirá cumprir os contratos firmados até abril e garantir a entrega de fertilizantes para a safra de verão. A empresa aprendeu com perdas de US$ 90 mil em 2022 devido a cancelamentos de pedidos pela guerra entre Rússia e Ucrânia. Desde então, implementou contratos mais rigorosos com clientes para evitar estoques desnecessários e prejuízos com a importação de matéria-prima de seus polos produtivos em 120 países.

Produção Local e o Desafio da Commodity

A Yara deve movimentar entre 6 e 7 milhões de toneladas para suprir o mercado brasileiro, somando-se às 2 milhões de toneladas produzidas em suas unidades em Cubatão (SP), Rio Grande (RS) e Ponta Grossa (PR). Nessas fábricas, a empresa aposta em formulações “premium”, consideradas mais estratégicas para o mercado brasileiro do que fertilizantes commodity, dada a alta concorrência e a pressão de múltiplos fatores. Mesmo assim, a produção nacional representa uma fatia pequena do consumo total do país, que foi de cerca de 49 milhões de toneladas em 2025, segundo a Anda (Associação Nacional para Difusão de Adubos). Fontes do setor preveem reduções no uso de compostos em 2026, com produtores optando por itens mais baratos em detrimento de produtos mais potentes.

Inadimplência: A Preocupação que Assombra as Distribuidoras

Nas distribuidoras, a principal apreensão gira em torno do aumento da inadimplência. O dia 30 de abril, conhecido como o “dia D” dos pagamentos nas revendas agrícolas, será um indicativo crucial para avaliar o impacto financeiro dessa crise no agronegócio brasileiro. A expectativa é de um aumento significativo nos casos de não pagamento, refletindo a dificuldade dos produtores em honrar seus compromissos em meio a um dos períodos mais desafiadores da história recente do setor.