Nicole Allgranti, sobrinha-neta de Clarice Lispector, detalha o processo de adaptação de contos para o cinema, destacando o efeito de “cura” proporcionado pela obra.
O filme “Rio de Clarice”, que estreou nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (13), traz para a indústria audiovisual a sensibilidade e a força de Clarice Lispector, um dos nomes mais influentes da literatura nacional.
Dirigido por um time de cineastas, incluindo Nicole Allgranti, sobrinha-neta da escritora, e Taciana Oliveira, o longa adapta cinco contos de diferentes fases da autora, unindo seus universos em uma produção plural e etérea.
O projeto vai além de um mergulho autobiográfico, propondo-se a entrelaçar as inquietações de Clarice Lispector com a brasilidade e a experiência humana, como explica Nicole Allgranti em entrevista à CNN Brasil.
O simbolismo dos “cinco” contos e a atualidade de Clarice Lispector
A escolha de dividir a narrativa em cinco partes carrega um simbolismo próprio. “Essa não é a primeira vez que o cinema brasileiro faz uma junção de cinco filmes em um. E é um número muito próspero, cinco é aquilo que está na palma da nossa mão”, comenta Nicole Allgranti.
O filme reúne cinco histórias escritas em períodos distintos da obra de Clarice, desde 1950 até o último conto que ela escreveu em vida, em 1977. Essa seleção demonstra como os textos permanecem **muito atuais**, abordando temas universais.
A geografia afetiva e a adaptação para a linguagem cinematográfica
Embora a atmosfera carioca seja presente na obra de Clarice Lispector, o longa foi rodado na região serrana do Rio de Janeiro. “No nosso filme, a cidade não é a personagem. O que é mais importante é a atriz fazendo aquela personagem, e isso poderia estar ambientado em qualquer cidade do Brasil ou do mundo”, explica Allgranti.
Nicole Allgranti, que também assina o roteiro ao lado de Teresa Monteiro, ressalta a natureza cinematográfica do texto de Clarice. “Eu gosto de falar que o texto da Clarice é muito cinematográfico. Quando pego para roteirizar, encontro ali todas as possibilidades de transformar aquelas palavras em imagem”, detalha.
Taciana Oliveira, cineasta pernambucana convidada para a direção, destaca a importância da geografia afetiva na obra da autora, que viveu a infância em Recife antes de se mudar para o Rio de Janeiro. “Essa geografia afetiva perpassa toda a obra de Clarice, não tem como fugir disso”, conta.
O desafio de traduzir o “pensamento clariciano” e a pluralidade do elenco
Adaptar Clarice Lispector para a linguagem audiovisual exigiu sensibilidade para traduzir o seu pensamento em imagens sem perder a essência de suas palavras. “O que eu mais acho bacana é respeitar os diálogos, porque os personagens têm sua própria voz”, afirma Nicole.
Taciana complementa que o processo criativo é intuitivo e de extremo respeito à obra. “A Clarice tem um olhar sobre a mulher e sobre o ser humano de uma forma distinta, atemporal. É uma costura coletiva”, diz.
A pluralidade do elenco foi um ponto crucial. Segundo Nicole, “a história da Clarice pode ser feita por qualquer etnia, pode ser representada por qualquer povo, é universal”. Taciana reforça a urgência de democratizar o acesso à obra, que é “para todo mundo”.
“Epifania é cura”: o poder transformador do cinema de Clarice Lispector
Para quem nunca leu Clarice Lispector ou para os leitores de longa data, as diretoras esperam que o filme funcione como um convite à descoberta e ao fortalecimento pessoal. “Torço para que assistam, façam sua própria leitura e se conectem consigo mesmas, porque Clarice tem esse poder de desconstruir a gente para depois a gente levantar mais forte”, reflete Taciana.
Nicole Allgranti encerra com uma provocação sobre o impacto transformador do longa. “As mulheres de Clarice passam por um processo de epifania, e para mim epifania é cura. O texto da Clarice fortalece o ser humano, e dá um despertar. Nesses tempos loucos que a gente tá vivendo, eu me sinto fortalecida quando leio aquelas mulheres. É isso que a gente espera levar ao público”, conclui.