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Midterms nos EUA: Republicanos perdem força e Brasil pode sentir o impacto nas relações com Washington

O resultado das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos reacende o debate sobre os possíveis impactos na relação entre Washington e Brasília.

Com discussões em aberto entre os dois países, como tarifas e a classificação de organizações criminosas como terroristas, parlamentares brasileiros divergem sobre a real dimensão das mudanças que o novo cenário político americano pode trazer.

A vitória dos democratas nas chamadas midterms, eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, pode significar uma alteração na dinâmica das relações bilaterais, mas a extensão dessa mudança é ponto de discórdia entre especialistas e políticos.

A questão central é se o novo equilíbrio de forças no Congresso americano afetará de forma substancial a política externa dos EUA em relação ao Brasil. Conforme informações debatidas na última quarta-feira (4), em “O Grande Debate”, o tema gerou diferentes perspectivas entre os deputados federais Gilson Marques (NOVO-SC) e Fá bio Felix (PSOL-DF).

Marques vê mudança conjuntural, sem impacto diplomático direto

Para o deputado Gilson Marques, o resultado das midterms representa uma alteração conjuntural, e não uma transformação ideológica profunda do eleitorado americano. Ele argumenta que o foco dos eleitores foi o custo de vida, apontado por 90% deles como o principal problema do país, segundo dados da Reuters.

“O fato dos americanos terem escolhido mais democratas do que republicanos, inclusive em lugares históricos como Kansas e Texas, não significa que essas pessoas mudaram ideologicamente daquilo que elas sempre pensavam”, afirmou Marques, classificando o movimento nas urnas como “provisório e não duradouro”.

Marques também defendeu que o possível desvio de foco dos americanos em relação à América Latina pode ter um efeito positivo para o Brasil. “Ele vai precisar agora resolver o problema interno dele e talvez não se meter muito lá no Irã, na América Latina, entre outras coisas”, disse.

O parlamentar ressaltou ainda que as tarifas impostas pelos EUA prejudicam tanto brasileiros quanto consumidores americanos, que pagam mais por produtos importados. Segundo Marques, a diplomacia está mais ligada à presidência da República do que ao Congresso, o que limitaria o impacto direto dos novos parlamentares eleitos.

Fá bio Felix enxerga recado histórico contra o trumpismo

Em contrapartida, Fá bio Felix classificou o resultado das midterms como um recado histórico da população americana. “Não acontece uma mudança tão forte no Congresso americano desde 2006”, afirmou.

Para Felix, os democratas chegaram ao seu cenário mais otimista, com maioria tanto na Câmara quanto no Senado, e isso representa uma mensagem clara contra o que ele chamou de autoritarismo e trumpismo. Temas como o alto preço da moradia e o corte de políticas sociais foram centrais na campanha.

“Trump cortou o financiamento de política social, como política de saúde para as pessoas em situação de vulnerabilidade social, assistência social, não há política de moradia”, disse o deputado.

Felix mencionou a eleição de Alexandria Ocasio-Cortez e do primeiro senador muçulmano dos Estados Unidos, Abdul El-Sayed, como sinais do fortalecimento da ala mais à esquerda do Partido Democrata. Ele vê o resultado americano como parte de um movimento mais amplo, que teria começado no Brasil com a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, “o Brasil acabou sendo o prenúncio desse processo”.

Divergência sobre o significado das urnas e promessas de campanha

O debate entre os parlamentares também revelou visões opostas sobre o significado de uma derrota eleitoral. Marques argumentou que medidas impopulares, ainda que corretas, tendem a custar votos, e que isso não deve ser interpretado automaticamente como um erro de governo. “Às vezes é preciso fazer o que precisa ser feito, ter a pessoa grande, honesta e corajosa no governo que faça o que precisa ser feito, ainda que impopular”, disse.

Felix, por sua vez, rebateu afirmando que Trump descumpriu suas próprias promessas de campanha. “Trump cometeu um dos maiores estelionatos eleitorais da história política recente americana. Ele falou que não faria guerras, estava fazendo guerra, falou que não ia se envolver em conflitos internacionais, se envolveu da pior forma possível”, afirmou.

O parlamentar acrescentou que, com a retomada do Partido Democrata no Congresso americano, haveria mais condições para investigações e enfrentamentos ao governo Trump, o que, segundo ele, teria impacto tanto na política interna quanto na política externa dos Estados Unidos, afetando a relação do Brasil com Washington.