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Meta de inflação de 3% no Brasil: é possível, mas sustentabilidade gera debate e juros altos

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Meta de inflação de 3% no Brasil: um alvo alcançável, mas com ressalvas sobre sua sustentabilidade e o impacto dos juros altos

O Brasil busca atingir a mesma meta de inflação de 3% de países como México, Colômbia e Chile. No entanto, o país se destaca por manter as maiores taxas de juros entre seus pares, mesmo à beira de um processo de flexibilização monetária. Essa dicotomia levanta um debate crucial entre economistas sobre a sustentabilidade da meta em 3% e as razões por trás do elevado custo do dinheiro no país.

Questões históricas, estruturais e conjunturais da economia brasileira contribuem para a manutenção de juros altos. A pressão da dívida pública, uma taxa de juros neutra historicamente elevada e expectativas de inflação ainda desancoradas são fatores apontados por analistas como justificativas para a taxa nominal de 15% ao ano. Esses mesmos especialistas defendem um maior empenho no controle das contas públicas como caminho para a redução.

Apesar do cenário desafiador, o Banco Central do Brasil (BCB) tem demonstrado sucesso em sua missão de atingir a meta de 3%. Segundo projeções, a inflação deve ficar em 3,2% no terceiro trimestre de 2027. Essa performance é vista por alguns como superior à de bancos centrais de países com metas semelhantes, que parecem relutantes em reduzir a inflação. O BCB é elogiado por sua comunicação e análise técnica, elementos que o tornam mais respeitado no comparativo com México e Colômbia, conforme avaliação do economista Ernesto Revilla, do Citi.

Debate sobre a meta de inflação: é hora de mudar?

Em fevereiro, o Diretório Nacional do PT aprovou uma resolução defendendo a revisão da meta de inflação, buscando compatibilizá-la com o crescimento econômico e a geração de empregos de qualidade. Contudo, economistas alertam que discutir uma eventual mudança da meta em um cenário de expectativas de inflação desancoradas pode ser contraproducente. Mudar as regras do jogo quando se está acima do alvo pode gerar desconfiança no mercado.

Ernesto Revilla, do Citi, considera que o debate sobre a meta é válido, mas deve ocorrer após um período de ganho de credibilidade do Banco Central. Ele argumenta que discutir a meta quando a inflação está acima do esperado pode ser interpretado como uma tentativa de alterar as regras do jogo, prejudicando a confiança.

Metas ambiciosas e a necessidade de ajuste fiscal

Marcelo Kfoury Moinhos, professor do Insper, classifica a meta de 3% como ambiciosa para o Brasil. Ele concorda que uma mudança seria contraproducente no momento atual, mas pondera que mesmo uma meta de 4% não alteraria significativamente a dinâmica dos juros, dado que a desaceleração econômica observada foi pequena frente ao nível dos juros. A dificuldade em ancorar as expectativas de inflação pode ser um indicativo da necessidade de políticas mais coordenadas.

Sérgio Werlang, ex-diretor de Política Econômica do BC, defende há tempos uma meta de inflação mais elevada para o Brasil, mas condiciona essa possibilidade a um ajuste fiscal robusto. Ele ressalta que os países latinos com meta similar não possuem o mesmo grau de indexação de gastos públicos. Roberto Padovani, economista-chefe do Banco BV, aponta a reforma na estrutura de gastos públicos como o principal desafio para novos desenhos da política de inflação no Brasil.

Coordenação de políticas e a busca por credibilidade

A política monetária, por si só, tem se mostrado insuficiente para ancorar as expectativas de inflação no Brasil. A falta de coordenação com a política fiscal é apontada como um fator que dificulta o controle inflacionário, comparando a situação a ter o acelerador e o freio acionados simultaneamente. A consolidação da credibilidade do Banco Central é vista como um passo fundamental.

O economista-chefe do Banco BV, Roberto Padovani, enfatiza a importância de o Banco Central alcançar o alvo de 3% e ancorar as expectativas antes de um debate estrutural sobre a meta. A consolidação da credibilidade é essencial para que qualquer futura discussão sobre alteração da meta seja construtiva e não gere instabilidade. A busca por uma política econômica mais eficaz passa, necessariamente, pela harmonização entre as ações monetárias e fiscais.