Um estudo conduzido por pesquisadoras da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design, FAU-USP, identificou áreas da cidade de São Paulo onde o calor atinge com mais força quem tem menos recursos.
As pesquisadoras elaboraram mapas em escala censitária que mostram as chamadas ilhas de calor, ou seja, áreas que registram temperaturas superiores a outras partes da cidade, e relacionaram esses locais com indicadores sociais e de infraestrutura.
O trabalho aponta que a menor presença e o acesso limitado a áreas verdes está entre os principais fatores que elevam o calor nessas regiões, afetando principalmente populações de baixa renda, conforme informação divulgada pelo Jornal da USP.
Desigualdade climática e definição de risco
O estudo parte da premissa adotada pelo IPCC, Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, que define o risco ao calor como resultado da interação entre perigo climático, vulnerabilidade e exposição.
Em São Paulo, segundo a pesquisa, as altas temperaturas se tornam uma ameaça concreta quando atingem populações vulneráveis, especialmente moradores sem acesso a áreas verdes, ar-condicionado ou infraestrutura adequada.
Como afirmam as autoras, “Quanto maior a renda, espera-se que maior seja a capacidade de adaptação”, Muñoz, pesquisadora da FAU-USP.
Metodologia e o mapa das ilhas de calor
As pesquisadoras reuniram mapas em escala censitária, analisando separadamente cada setor reconhecido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, dentro do município.
Esses setores permitiram uma leitura detalhada das desigualdades intraurbanas, o que tornou possível identificar áreas que combinam maior exposição ao calor, alta vulnerabilidade social e menor capacidade de adaptação.
A intenção das autoras foi transformar o mapa em um instrumento prático, “A ideia era que isso não ficasse preso na academia, mas que pudesse ser aplicado em prefeituras”, Duarte, coordenadora do estudo.
Exemplo concreto, contrastes e dados
O trabalho cita contrastes claros entre bairros vizinhos, como o Morumbi e a comunidade de Paraisópolis, ambos na zona sul da cidade.
Segundo outro levantamento citado no estudo, feito pelo Centro de Estudos da Favela, enquanto a região nobre registra temperaturas em torno de 30 °C, na área periférica os termômetros podem chegar a 45 °C.
Esse contraste ilustra como a combinação de adensamento, falta de áreas verdes e baixa renda amplia o risco ao calor nas periferias das zonas leste, norte e sul.
Implicações para políticas públicas e planejamento urbano
Para as autoras, o principal avanço é a territorialização do debate climático, oferecendo um dado espacial que pode orientar intervenções locais e priorizar ações nas áreas mais afetadas.
A técnica que resultou nos mapas é apontada como ferramenta para suportar políticas públicas, “A técnica que resultou nos mapas é uma ferramenta para dar suporte para políticas públicas. É um dado exato que pode contribuir para o planejamento climático de cada município”, completa Muñoz.
Entre as medidas sugeridas estão a expansão e o acesso a áreas verdes, intervenções para reduzir o adensamento crítico, e investimentos em infraestrutura que aumentem a capacidade de adaptação das populações de baixa renda.
O estudo deixa claro que, sem ações direcionadas, as ilhas de calor seguirão reforçando desigualdades e colocando em risco quem já tem menos condições de se proteger do calor extremo.