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Guerra no Irã pode Fortalecer China: Adiamento da Cúpula Xi-Trump Ganha Nova Perspectiva

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Adiamento da cúpula Xi-Trump: Um Jogo de Estratégia para a China em Meio à Crise no Irã

O pedido de adiamento da reunião entre os presidentes Donald Trump, dos Estados Unidos, e Xi Jinping, da China, feito por Trump, pode trazer vantagens significativas para Pequim. Essa pausa nas negociações, segundo fontes chinesas, permite que ambos os lados contornem as complexas ramificações da guerra iniciada pelos EUA contra o Irã, um parceiro estratégico crucial para a China.

A forma como essa crise se desenrolar pode, inclusive, fortalecer a posição chinesa nas futuras negociações. Se Trump enfrentar dificuldades em controlar o conflito, que já afeta o fornecimento global de petróleo e o crescimento econômico, a China poderá ter uma margem de manobra maior, conforme analisam especialistas.

A China tem mantido uma postura cautelosa e estratégica em relação ao adiamento, sem confirmar oficialmente a visita planejada e sem se pronunciar diretamente sobre a proposta de adiamento de “cinco a seis semanas”. Essa abordagem vaga pode estar relacionada à busca por maior flexibilidade nas negociações futuras. As informações são de diversas fontes chinesas familiarizadas com o assunto.

A Posição Cautelosa e Estratégica de Pequim

Embora o Ministério das Relações Exteriores da China, através de seu porta-voz Lin Jian, tenha destacado o papel “insubstituível” das cúpulas de líderes na condução das relações bilaterais, nos bastidores a cautela persiste. Fontes anônimas, com conhecimento do processo, indicam que a cúpula ainda pode sofrer alterações ou até mesmo não ocorrer conforme o planejado, com a possibilidade de qualquer um dos lados desistir das negociações.

Uma das aparentes “linhas vermelhas” de Pequim, segundo uma das fontes, seria a ocorrência de grandes baixas entre cidadãos chineses ou danos significativos a ativos chineses na região do Irã. Nesses casos, a participação de Trump na cúpula poderia se tornar inviável.

O encontro era visto como uma oportunidade crucial para redefinir a relação entre as duas maiores potências econômicas e militares do mundo. O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, chegou a classificar 2026 como um ano “crucial para as relações China-EUA”, em resposta a uma pergunta da CNN sobre o impacto do conflito no Irã na visita planejada de Trump, o que foi interpretado como um sinal de compromisso com o diálogo.

O Adiamento Como Sinal de Fragilidade Americana

O adiamento proposto por Trump é visto por especialistas como um sinal de força para a China. Essa decisão pode indicar uma avaliação do governo americano sobre a duração esperada da guerra no Irã. Wu Xinbo, diretor do Centro de Estudos Americanos da Universidade Fudan, em Xangai, sugere que quanto mais a guerra se prolongar, maior será a frustração de Trump e mais evidente sua fragilidade, colocando-o em uma posição desvantajosa nas negociações com a China.

“Veremos se Trump ainda terá muitas cartas na manga até lá, então é melhor esperarmos um pouco do que agirmos precipitadamente”, comentou Wu, que também é membro do Comitê Consultivo de Política Externa do Ministério das Relações Exteriores da China. A posição de Trump já estaria fragilizada após a decisão da Suprema Corte dos EUA de derrubar tarifas emergenciais em fevereiro.

A “guerra surpresa” com o Irã gerou reações mistas nos EUA, e promessas de um fim rápido que não se concretizaram podem desgastar sua popularidade. “O plano dele era resolver tudo rapidamente, mas no fim, mesmo depois de todo esse tempo, ele ainda não conseguiu solucionar o problema e ficou atolado nele”, acrescentou Wu.

China: Da Crise à Oportunidade Diplomática

A China, assim como o restante do mundo, pode enfrentar impactos econômicos negativos devido à guerra no Irã. No entanto, especialistas apontam que essa crise também oferece à Pequim uma oportunidade de ouro para se posicionar como uma alternativa confiável e pacífica no cenário global. Isso ocorre em um momento em que países do Golfo e a Europa demonstram crescente desconfiança em relação à imprevisibilidade da administração americana.

“Muitos países ao redor do mundo agora consideram a China um parceiro mais confiável do que os EUA. Isso não significa que a China seja necessariamente um parceiro mais confiável, mas sim que as mudanças nos EUA fizeram com que as pessoas a percebessem dessa forma”, afirma Rana Mitter, especialista em relações EUA-Ásia da Harvard Kennedy School. Ele acredita que a China usará essa percepção a seu favor antes e depois da cúpula.

Preparativos Complexos e o Caminho Futuro

Para muitos diplomatas chineses, preparar uma cúpula entre Xi e Trump é uma tarefa complexa, exigindo meses de planejamento e negociações minuciosas sobre cada detalhe, desde os pontos de discussão até o protocolo de recepção. O adiamento, segundo Wu, trouxe um alívio, pois os preparativos iniciais foram considerados “insuficientes”.

A abordagem de Trump para a preparação desta visita difere da de governos americanos anteriores, segundo Wu. Delegações de alto nível já concluíram negociações em Paris para estabelecer as bases da cúpula. No entanto, o protocolo diplomático geralmente inclui uma viagem preparatória do Secretário de Estado ou do Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, o que ainda não ocorreu.

“Acho que adiar um pouco a visita daria a ambos os lados mais tempo para negociar e se preparar, o que poderia levar a um resultado melhor para a visita”, disse Wu. A relação EUA-China tende a ser marcada por competição contínua, com esforços periódicos de estabilização. O adiamento, em vez do cancelamento, sugere que ambos os lados ainda valorizam a diplomacia de cúpula, conforme Neil Thomas, pesquisador do Asia Society Policy Institute.

A guerra no Irã adiciona um elemento de incerteza. Wang Yi a chamou de “uma guerra que nunca deveria ter acontecido”, mas Pequim tem evitado tomar partido. A China pode adotar uma postura de “esperar para ver”, especialmente se acreditar na resiliência de sua economia a um choque global. Contudo, se essa confiança diminuir ou se Xi avaliar que o conflito enfraqueceu a posição de negociação de Trump, Pequim pode se tornar mais ousada em sua abordagem aos EUA, segundo Charles Austin Jordan, analista do Rhodium Group.