Fim da Escala 6×1: O Que Muda Para Empresas e Trabalhadores e os Riscos Para a Economia Brasileira
A aprovação da redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, sem diminuição salarial, promete mais tempo de descanso para os brasileiros. Contudo, a mudança traz desafios significativos para as empresas, que buscam manter a produção e o atendimento sem elevar custos excessivamente. A capacidade de produzir mais em menos tempo, reorganizar equipes ou contratar novos funcionários será crucial.
Se essas adaptações não forem suficientes, o impacto pode se refletir em preços mais altos para o consumidor, margens de lucro menores para os negócios ou até mesmo a redução de vagas de emprego. A proposta, que prevê a transição gradual para as 40 horas semanais, aumenta o custo por hora trabalhada e exige uma profunda reorganização das operações empresariais.
Estimativas da Confederação Nacional da Indústria (CNI) indicam um possível aumento de R$ 267,2 bilhões nos custos de produção e uma redução de 0,7% no PIB. Já simulações do FGV Ibre apontam quedas ainda mais expressivas no Produto Interno Bruto caso as empresas não consigam compensar a redução de horas com ganhos de eficiência. Essas informações foram divulgadas com base em análises de impacto econômico.
O Desafio da Produtividade no Brasil
Para que a redução da jornada de trabalho não resulte em perdas, as empresas precisam aumentar sua produtividade, ou seja, produzir mais com os mesmos recursos. Isso pode ser alcançado com investimentos em tecnologia, máquinas mais eficientes, treinamento de pessoal ou melhor organização do trabalho. No entanto, o Brasil historicamente enfrenta dificuldades em elevar sua produtividade.
Dados do Observatório da Produtividade Regis Bonelli, do FGV Ibre, mostram que o crescimento da produtividade por trabalhador no Brasil tem sido muito baixo nas últimas décadas. Entre 1981 e 2024, o avanço médio anual foi de apenas 0,2%. O cenário recente é ainda mais preocupante, com queda na produtividade por trabalhador entre 2013 e 2024.
Essa estagnação na produtividade dificulta a sustentação do crescimento econômico, que no Brasil muitas vezes depende da entrada de mais pessoas no mercado de trabalho ou de estímulos temporários, caracterizando o chamado “voo de galinha”. A baixa produtividade limita a capacidade de gerar mais riqueza e renda sem pressionar os custos.
Impactos Econômicos e Setoriais da Mudança
A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) estima que o fim da escala 6×1 pode elevar em até 21% os custos com a folha de pagamento no comércio. Para o varejo, o impacto anual seria de R$ 122,4 bilhões, e para o setor de serviços, R$ 235 bilhões.
Diante desse cenário, as empresas enfrentam decisões difíceis: absorver os custos com margens menores, repassar para os preços, reduzir equipes ou até mesmo restringir o horário de funcionamento. Fato é que, sem um ganho de produtividade equivalente, a pressão de custos pode se espalhar pela economia, gerando inflação e dificultando o trabalho do Banco Central em controlar a alta de preços.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) projeta altas nos preços de produtos de supermercado, bens industrializados e vestuário. A CNC, por sua vez, estima que o repasse aos preços no comércio e serviços pode chegar a 13%, impactando diretamente o bolso do consumidor brasileiro.
Risco de Informalidade e a Busca por Eficiência
Com o aumento dos custos de contratação formal, há o risco de algumas empresas buscarem alternativas como a terceirização ou a contratação de pessoas jurídicas (pejotização), o que pode levar a um aumento da informalidade e da precarização do trabalho. Essa migração de empregos formais para a informalidade é vista como um risco relevante no médio prazo.
A tecnologia pode ser uma aliada, com a automação de tarefas e sistemas digitais otimizando processos. No entanto, em setores de atendimento presencial, a necessidade de manter funcionários disponíveis durante o expediente pode exigir a contratação de mais pessoas, elevando os encargos. A adaptação tende a ser mais fácil para grandes empresas com acesso a capital e tecnologia.
A questão central é como o Brasil conseguirá produzir o suficiente para sustentar a renda e o crescimento com uma jornada de trabalho menor. O descanso adicional é um ganho social importante, mas a elevação da produtividade, um desafio histórico para o país, é fundamental para que essa transição ocorra sem comprometer a economia e o poder de compra da população.