Investigação da CNN expõe série de falhas e negligências na manutenção das montanhas-russas da Six Flags nos EUA
Uma análise minuciosa da CNN, baseada em registros públicos e documentos judiciais, trouxe à tona um cenário preocupante sobre a segurança das atrações da rede Six Flags nos Estados Unidos. Os documentos revelam um histórico de falhas e negligência na manutenção de suas montanhas-russas e outros brinquedos, culminando em centenas de relatos de ferimentos e acidentes perigosos.
O caso mais recente, que resultou na morte de Hassan Jihad Ibn Kariem, de 42 anos, após cair da montanha-russa Goliath no parque Six Flags Over Georgia, intensificou as investigações e levou à suspensão temporária de 10 atrações em sete estados diferentes. Este incidente trágico, que também deixou outros visitantes feridos, é apenas a ponta de um iceberg de problemas que vêm sendo reportados há anos.
Os registros de segurança dos últimos cinco anos, abrangendo mais de uma dúzia de parques em três estados, detalham problemas de manutenção que incluem descarrilamentos, falhas em barras de contenção e uma gama de ferimentos em visitantes, como luxações e concussões. A rede Six Flags, a maior operadora de parques temáticos do país, afirma estar comprometida com rigorosos procedimentos de segurança, mas as alegações em processos judiciais pintam um quadro diferente, sugerindo cortes drásticos de pessoal e adiamento de manutenções essenciais, especialmente no período que antecedeu sua fusão com a Cedar Fair em 2024.
Histórico de Problemas e Processos Judiciais
Documentos judiciais e registros públicos detalham um padrão preocupante de problemas de segurança em parques da Six Flags. Nos últimos cinco anos, quase 300 relatos de acidentes foram submetidos a órgãos reguladores estaduais em parques da rede. Entre as ocorrências, destacam-se queimaduras químicas, articulações deslocadas, concussões e fraturas ósseas.
Um exemplo notório é a montanha-russa X2, no Six Flags Magic Mountain, que foi associada a mais de uma dúzia de casos de lesões cerebrais graves, hospitalizações e até mortes. A atração permaneceu em operação por quase duas décadas, apesar de um longo histórico de problemas, sendo fechada permanentemente após a divulgação de casos de cirurgias cerebrais de emergência em visitantes em um curto intervalo de tempo.
Dois processos movidos por investidores no ano passado alegam que a administração da Six Flags adiou manutenções básicas e reparos na infraestrutura, além de promover cortes significativos no quadro de funcionários. Executivos da empresa, em teleconferências com investidores, mencionaram a necessidade de investir em “itens pendentes” e reconheceram que a “lista de melhorias necessárias é sempre longa”, segundo citações nos processos.
Acidentes Recorrentes em Diversos Parques
Os problemas não se limitam a um único parque ou atração. No Six Flags Great Adventure, em Nova Jersey, registros estaduais apontaram lesões e falhas técnicas semelhantes. Houve o descarrilamento de um carrinho em 2024, causado por falha no equipamento, e casos recorrentes de barras de segurança que se abriam durante o percurso, por vezes devido à quebra de parafusos.
Em sete ocasiões distintas, visitantes precisaram ser retirados de uma atração aquática devido a colisões entre embarcações, travamentos ou fumaça proveniente de componentes com defeito. Uma criança necessitou de atendimento médico após bater a cabeça repetidamente na barra de contenção de uma montanha-russa.
A montanha-russa “El Toro”, conhecida por suas altas velocidades e quedas acentuadas, também tem sido alvo de relatos de segurança e processos judiciais. Em agosto de 2022, mais de uma dúzia de pessoas ficaram feridas após um solavanco violento. Um mês depois, a atração foi classificada como “estruturalmente comprometida” e permaneceu fechada por quase um ano.
Tragédias Passadas e Alertas Ignorados
Um incidente fatal ocorrido há mais de uma década no Six Flags Over Texas, onde Rosa Esparza, de 52 anos, morreu após ser arremessada da montanha-russa Texas Giant, ecoa a tragédia mais recente na Geórgia. Testemunhas relataram um estalo antes de Esparza ser lançada, e funcionários informaram que sensores defeituosos haviam sido consertados poucos dias antes. Registros indicam que um visitante se feriu no mesmo brinquedo oito anos antes devido a uma falha na barra de segurança.
Uma mulher relatou que sua filha registrou uma falha no brinquedo uma semana antes da morte de Esparza, com um vídeo mostrando a barra de contenção abrindo-se espontaneamente antes mesmo do carrinho deixar a estação. Na época, o Six Flags afirmou que uma investigação não encontrou falha mecânica, e a montanha-russa foi reaberta com novas medidas de segurança, incluindo um sistema de contenção redesenhado.
Respostas da Six Flags e Estatísticas de Segurança
Em resposta às preocupações, a Six Flags declarou à CNN estar “comprometida com procedimentos rigorosos de inspeção, manutenção e segurança, que atendem ou superam os padrões do setor”. A empresa também afirmou que todos os casos de ferimentos em visitantes são “levados a sério” e analisados, e que os incidentes examinados pela CNN “abrangem múltiplos parques, atrações, anos, jurisdições e circunstâncias”.
A empresa argumenta que conclusões generalistas extraídas de uma compilação de relatos podem não oferecer o contexto completo de cada evento ou de sua abordagem geral em relação à segurança. É importante notar que acidentes em parques temáticos continuam sendo raros. Um relatório do setor indicou cerca de 1.500 casos de lesões em 2024, com a maioria atribuída ao comportamento dos visitantes ou condições médicas preexistentes, e cerca de 25% causados por problemas técnicos ou operacionais.
Edward Pribonic, engenheiro de atrações e especialista em segurança de parques, alerta que incidentes de segurança recorrentes e falhas mecânicas geralmente indicam uma falta de atenção às normas e requisitos do fabricante, frequentemente motivada por restrições orçamentárias ou “incompetência”. A legislação da Califórnia, por exemplo, exige que operadores relatem acidentes que resultem em morte ou ferimento grave, a menos que o ferimento não necessite de atendimento além de primeiros socorros básicos.
