Europa vive uma tensão crescente, com governos europeus reagindo a pressões externas e revendo suas defesas.
O equilíbrio tradicional de segurança foi abalado por ações e retórica que questionam vínculos antigos, e isso impulsiona discussões sobre um caminho próprio para a defesa do continente.
As observações de Hussein Kalout sobre esse cenário foram apresentadas no WW Especial, da CNN Brasil, conforme informação divulgada pelo WW Especial, da CNN Brasil.
Pressão dos EUA, prática do “o anarquismo” e fortalecimento russo
Segundo Kalout, a Europa está “comprimida entre ‘o anarquismo’ do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e a postura militar agressiva da Rússia”. Essa descrição ressalta uma mudança na atitude americana, que, embora ainda veja o velho continente como aliado, o trata como defasado e fraco.
Na visão do especialista, a postura agressiva de Washington contra Bruxelas “fortalece o apetite dos russos de se tornar mais agressiva com a Europa Ocidental”. Kalout afirma também que, após tantos ataques diretos e indiretos, os europeus parecem “se tocar” de que estão sozinhos.
Ele resume a percepção do continente com outra frase direta, “Quando a Europa percebe que perdeu seu guarda-chuva securitário, que advinha dos EUA, ela percebe que se torna totalmente exposta à Rússia”. Essa sensação de vulnerabilidade é central para o novo momento estratégico.
Rearmamento e dados concretos sobre gastos com defesa
O resultado prático dessa percepção foi um movimento claro de rearmamento. A Polônia, por exemplo, expandiu as despesas militares ao longo dos últimos 5 anos, saindo de 2,3% do PIB em 2020 para 4,2% em 2024.
Os países bálticos, Estônia, Letônia e Lituânia, também aumentaram gastos com defesa para acima de 3% do PIB, e todos fazem fronteira direta com a Rússia, fator que explica a urgência das medidas.
A Alemanha descartou seu rígido teto de gastos para expandir investimentos no setor, superando um trauma geracional em relação às forças armadas, e passou a alinhar-se com Varsóvia em defesa de uma maior capacidade européia.
O debate sobre nuclearização e as palavras de líderes
O primeiro-ministro da Alemanha, Friedrich Merz, afirmou, no começo do mês, “Consideramos a dissuasão nuclear estritamente integrada na nossa partilha nuclear no âmbito da OTAN e não permitiremos o desenvolvimento de zonas com diferentes níveis de segurança na Europa”.
Merz disse ainda que trataria do tema com o presidente da França, Emmanuel Macron. A França é o único país da União Europeia a possuir armas nucleares, enquanto Itália, Bélgica, Alemanha e Países Baixos apenas abrigam esse tipo de armamento.
Macron, em seu discurso na Conferência de Segurança de Munique, defendeu que a região precisa se tornar um “poder geopolítico”, com maior integração interna, e afirmou, “Se nós quisermos ser levados a sério no continente europeu e além dele, nós precisamos mostrar ao mundo nosso compromisso inabalável de defender nossos interesses”.
Autonomia estratégica, legado de De Gaulle e os próximos passos
Kalout retoma o conceito histórico da “autonomia estratégica” defendida por Charles de Gaulle, lembrando que a ideia de uma Europa que não dependa integralmente de terceiros para sua segurança voltou a ganhar força, “De Gaulle estava certo”, finaliza o pesquisador.
Para analistas, a combinação de pressão americana, agressividade russa e o aumento de gastos de defesa empurra a Europa a discutir mecanismos de coordenação, capacidades conjuntas e maior autonomia em tecnologia e dissuasão.
O desafio é conciliar posições nacionais diversas, integrar capacidades militares e tecnológicas e, ao mesmo tempo, manter alianças externas quando necessário, numa região que busca ser vista como um ator geopolítico coerente.