Mercado de Nova York vive semana de correção após euforia com Inteligência Artificial, com investidores exigindo retornos concretos.
As bolsas de valores em Nova York atravessam uma semana de “ressaca” após um período de intensa euforia impulsionada pela inteligência artificial (IA). Na sexta-feira (30), o mercado sofreu perdas significativas, com o Nasdaq Composite caindo 2,86% e o S&P 500 recuando 1,82%, registrando seus piores dias desde junho. O Dow Jones também sentiu o impacto, com uma queda de aproximadamente 1,1%.
Essa reviravolta ocorre poucas semanas após ambos os índices, Nasdaq e S&P 500, terem atingido máximas históricas. Contudo, as preocupações com taxas de juros mais altas, os vultosos gastos das empresas de tecnologia com IA e resultados financeiros abaixo do esperado têm abalado a confiança dos investidores.
O Nasdaq, por exemplo, já acumula uma queda de 7,8% em relação ao seu pico no início deste mês, sofrendo seu pior declínio mensal desde março de 2025. O S&P 500, por sua vez, está cerca de 3% abaixo de seu ápice. Essas movimentações refletem uma mudança de sentimento em Wall Street, que agora exige mais do que promessas sobre o futuro da IA. Conforme informações divulgadas por fontes de mercado, os investidores estão passando da fase de “esperanças e sonhos” para um ceticismo pragmático, conhecido como a fase do “me mostre”.
Gigantes da tecnologia sob pressão: Gastos com IA e resultados aquém das expectativas
A Intel foi uma das mais atingidas, com suas ações despencando 28,58% na sexta-feira, o segundo pior dia de sua história. A empresa divulgou uma previsão mais fraca para o quarto trimestre, citando a fraqueza no mercado de PCs e o aumento dos custos de chips de memória, que afetam a demanda dos consumidores. A Amazon também viu suas ações recuarem 1,4% após um relatório de resultados que indicou novos aumentos nos gastos com IA, enquanto vendas e lucros ficaram abaixo das expectativas.
Alphabet (Google) e Nvidia sentem o baque da desconfiança com a IA
A Alphabet, empresa controladora do Google, já havia sofrido um baque na quinta-feira (29), com suas ações afundando mais de 12%, o que eliminou meio trilhão de dólares de seu valor de mercado. Investidores demonstraram preocupação com uma desaceleração no negócio de publicidade de busca do Google e com o aumento dos gastos em IA. As ações da Alphabet registraram uma queda adicional de 1,4% na sexta-feira, marcando seu pior mês já registrado.
Outros fabricantes de chips semicondutores também foram afetados. As ações da Nvidia caíram 4,2%, e um índice amplamente acompanhado de fabricantes de chips afundou 7,2%. Essa reação em cadeia demonstra a crescente cautela do mercado em relação aos investimentos massivos em IA e a pressão por retornos tangíveis.
O “me mostre” de Wall Street: Exigência por lucros e caixa
Gigantes como Alphabet, Microsoft, Meta e Amazon estão investindo centenas de bilhões de dólares na construção de data centers. Se antes a empolgação com a IA era generalizada, agora Wall Street se torna mais criteriosa, avaliando quais empresas estão gastando de forma racional e obtendo retornos concretos sobre o investimento. O mês de outubro tem sido particularmente desafiador para as ações ligadas à IA, com investidores exigindo provas de que esses investimentos se traduzirão em lucro.
“Estamos saindo da fase de esperanças e sonhos do mercado de IA e entrando na fase do ‘me mostre’”, afirmou Joe Tigay, gestor de portfólio da Equity Armor Investments. Ele complementa que, embora carteiras de pedidos cheias sejam positivas, os investidores querem ver quem realmente consegue entregar, transformar essa demanda em lucros e gerar caixa.
Fluxo de caixa negativo e a busca por retornos imediatos
As preocupações com o impacto no balanço das empresas aumentam à medida que os gastos com IA se intensificam. A Alphabet registrou dois trimestres consecutivos de fluxo de caixa livre negativo pela primeira vez em sua história, enquanto a receita não cresce tão rapidamente quanto o esperado. A Meta também divulgou fluxo de caixa livre negativo no último trimestre, algo que não ocorria desde 2012.
A Amazon anunciou um fluxo de caixa livre negativo de US$ 42,4 bilhões nos últimos 12 meses, impulsionado pelo aumento dos gastos com IA. “Os investidores não querem apenas capex, eles querem ver os retornos agora”, disse Neil Wilson, estrategista da Saxo Markets. Ele ressalta que o mercado de IA está começando a ter uma avaliação mais crítica do retorno sobre o investimento dessa “monstruosa farra com IA”.
Microsoft na contramão e a busca por setores defensivos
Em contraste, a Microsoft anunciou um fluxo de caixa livre positivo de US$ 18,6 bilhões no último trimestre, e suas ações acumulam queda de apenas 4% desde a máxima histórica. Essa performance se destaca em um cenário onde Alphabet e Meta já se encontram em mercado de baixa, com quedas superiores a 20% desde seus picos. Essa situação também reflete uma migração de investidores para setores considerados mais defensivos, como bens de consumo básico e títulos do governo.
O nervosismo do mercado foi acentuado por outros fatores, como a queda do Bitcoin mais de 4% no último dia, atingindo seu nível mais baixo em mais de um mês, após um grande roubo em uma exchange de criptomoedas. Além disso, a empresa de software ServiceNow viu suas ações despencarem 27% na quinta-feira, seu pior dia já registrado, após resultados de lucro ligeiramente abaixo das expectativas. “O mercado não gosta de incerteza”, comentou Ted Mortonson, estrategista de tecnologia do Baird. “As pessoas simplesmente saem do caminho até conseguirem entender a situação.”
