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EUA buscam agregar valor em minerais no Brasil com financiamento para refino e separação, reduzindo dependência da China

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EUA querem mais que extração: financiamento para refino e separação de minerais críticos no Brasil

O governo dos Estados Unidos tem demonstrado um interesse renovado e estratégico na cadeia de suprimentos de minerais críticos, com um foco particular no Brasil. As conversas com mineradoras indicam que o objetivo principal não é apenas a extração, mas também o desenvolvimento de etapas intermediárias e avançadas de processamento dentro do território nacional.

Essa abordagem visa reduzir significativamente a dependência global da China, que atualmente domina não só a produção mineral, mas também as fases de maior valor agregado, como refino e separação química. A intenção americana é **incentivar a industrialização local**, agregando valor aos minerais extraídos no Brasil.

Esse direcionamento estratégico foi explicitado em um memorando de entendimento recente entre o estado de Goiás e os Estados Unidos. O acordo, que funciona como uma declaração de intenções, prevê o desenvolvimento de etapas industriais completas, incluindo a separação de terras raras e a produção de ligas metálicas e ímãs permanentes de neodímio, produtos de alto valor estratégico. Essa informação foi divulgada por fontes ligadas às negociações.

A importância da agregação de valor para os EUA e o Brasil

A estratégia dos Estados Unidos se intensifica em um cenário onde a China detém um controle significativo sobre a produção global de produtos derivados de minerais críticos. Por exemplo, a China concentra mais de 90% da produção mundial de ímãs permanentes, essenciais para diversas tecnologias modernas.

Sem a verticalização da cadeia produtiva, os esforços para diversificar fornecedores perdem eficácia. A China tende a manter sua dominância nas etapas de maior valor e controle tecnológico, mesmo com novas fontes de minério bruto. Por isso, o recado dos americanos é claro: **apoiar a industrialização nos países com reservas minerais**, especialmente no Brasil, que tem endurecido seu discurso e condicionado acordos à agregação de valor local.

Gabriel Escobar, Encarregado de Negócios da Embaixada dos EUA no Brasil, destacou o potencial brasileiro: “O Brasil tem a oportunidade de desempenhar um papel fundamental no desenvolvimento de cadeias globais de suprimentos de minerais críticos seguras e resilientes. Os EUA já estão investindo mais de 600 milhões de dólares em projetos de minerais críticos no Brasil, e vemos o potencial para bilhões de dólares adicionais de investimento americano nessa área”.

Desafios e Oportunidades na Cadeia de Minerais Críticos

A produção de bens finais, como ímãs ou baterias, no Brasil ainda é vista como um desafio a médio e longo prazo. Essas etapas exigem a atração de novos setores produtivos e tecnologia avançada, atualmente concentrada na Ásia. É provável que a fabricação de produtos finais ocorra nos EUA ou na União Europeia.

No entanto, mesmo projetos que não alcancem as etapas finais de produção já oferecem espaço relevante para **agregação de valor dentro do Brasil**. Um exemplo é o projeto da Brazilian Nickel, no Piauí, que produz mixed hydroxide precipitate (MHP), um composto intermediário crucial para a fabricação de baterias. Este é um estágio mais avançado que o minério bruto, sendo posteriormente refinado para obter níquel de alta pureza.

Projetos inovadores no radar americano

Outro projeto em destaque nas discussões é o de Araxá, da St George Mining, que adota uma estratégia inovadora ao minerar nióbio e terras raras do mesmo depósito. A empresa está conduzindo testes metalúrgicos para definir a melhor rota de processamento, que pode variar desde a produção de um concentrado misto de terras raras até a obtenção de óxidos separados de neodímio e praseodímio.

Esses elementos são fundamentais para a fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho, insumos críticos para veículos elétricos, turbinas eólicas e aplicações de defesa. Ambas as opções de produto final consideradas pela empresa já representam **etapas relevantes de agregação de valor no Brasil**, pois envolvem processos químicos e metalúrgicos complexos.

A produção de carbonato misto implica um processamento químico que reduz volume e aumenta o valor do produto, preparando-o para refino posterior. A separação de óxidos individuais, por sua vez, representa um estágio ainda mais avançado, transformando o minério bruto em insumos industriais de alta tecnologia e valor agregado.