USDA sob Fogo Cruzado: Aumento nos Estoques de Milho Gera Desconfiança em Dados de Ração Animal
O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) está sob escrutínio após divulgar dados que indicam um aumento surpreendente nos estoques de milho. Analistas apontam que essa elevação pode significar que as estimativas anteriores sobre o uso do grão para alimentação animal foram superestimadas, levantando sérias questões sobre a precisão das projeções da agência.
A situação reacende um debate recorrente sobre a confiabilidade das informações divulgadas pelo USDA, órgão historicamente considerado a principal referência em dados do mercado agrícola mundial. Erros anteriores já haviam abalado a confiança, e os números recentes parecem confirmar as suspeitas de que as estimativas de safra e consumo podem não refletir a realidade do mercado.
A expectativa agora é que o USDA revise para baixo suas projeções sobre a quantidade de milho destinada à ração animal referente ao ano passado. Essa potencial correção de rota, conforme divulgado por analistas consultados pela Reuters, pode ter implicações significativas para o mercado global de commodities agrícolas, impactando preços e estratégias de produtores e consumidores.
Estoques Superam Expectativas e Levantam Bandeiras Vermelhas
No início do mês passado, agricultores e processadores de grãos detinham mais de 2 bilhões de bushels de milho armazenados. Esse número representa um aumento de 35% em relação ao ano anterior e superou em 9% as estimativas dos analistas, de acordo com dados trimestrais divulgados pelo USDA em 30 de setembro. Esse volume expressivo de milho estocado gerou um alerta.
Analistas e economistas interpretaram esses dados como um forte indicativo de que o USDA pode ter superestimado a quantidade de milho utilizada como ração animal. Este, por sua vez, é um indicador crucial para medir a demanda por este grão fundamental na cadeia produtiva agrícola mundial.
Dúvidas Sobre a Metodologia de Estimativa do USDA
A metodologia utilizada pelo USDA para estimar o uso de milho para ração tem sido alvo de questionamentos. A agência não possui uma medida direta desse consumo. Em vez disso, estima a quantidade de milho fornecida aos animais em uma categoria mais ampla, que também inclui usos residuais, como grãos desperdiçados, após contabilizar exportações e o uso para produção de etanol.
Especialistas levantaram dúvidas sobre a estimativa anterior do USDA de um aumento de 17% no uso para ração antes da colheita de outono, em comparação com o ano anterior. Argumentam que o rebanho bovino do país está no menor nível em 75 anos, o que implicaria menos animais para alimentar. Mesmo considerando a criação de animais mais pesados, a demanda não deveria impulsionar os números tanto quanto projetado.
Impacto nos Estoques Futuros e Revisão de Projeções
A utilização menor de milho para ração tem o potencial de aumentar ainda mais os estoques de grãos. Em um relatório mensal previsto para ser divulgado nesta sexta-feira, espera-se que o USDA eleve sua estimativa da quantidade de milho que estará armazenada em setembro em 7% em relação ao mês anterior, atingindo 1,67 bilhão de bushels, segundo pesquisa da Reuters com analistas.
“Na minha opinião, eles finalmente admitiram a verdade”, afirmou Jim McCormick, cofundador da corretora AgMarket.Net. Ele ressalta que vinha argumentando há meses que os números relativos à ração estavam muito altos, e que a recente divulgação de dados parece ter esclarecido a questão. Mike Castle, economista sênior de commodities da consultoria StoneX, também expressou suas dificuldades em entender as projeções anteriores, chamando-as de um “labirinto” sem boa explicação.
USDA Defende Coleta de Dados e Atualizações Constantes
O USDA, por sua vez, afirmou que atualiza as estimativas para uso na ração e fins residuais conforme os estoques e outras informações se tornam disponíveis. A agência declarou ter realizado pesquisas extensas com agricultores e instalações comerciais de armazenamento de grãos para coletar dados trimestrais sobre estoques. Segundo o órgão, uma previsão que necessita de atualização não indica, por si só, um problema incomum com a previsão ou a coleta de dados.
