A 36ª Abertura Oficial da colheita do arroz começa nesta terça-feira em Capão do Leão, no Rio Grande do Sul, palco tradicional do início da safra no país. Produtores, técnicos e agentes da cadeia orizícola se reúnem para discutir medidas imediatas de proteção ao setor.
O cenário que cerca a colheita do arroz é de apreensão, com estoques globais em alta e preços domésticos que não cobrem o custo de produção para muitos agricultores. Entre os temas em debate estão a competitividade internacional, redução de tarifas e estímulos à exportação.
As preocupações também levam a pedidos por redução da área plantada para controlar oferta, além de demandas por prorrogação de dívidas diante de juros elevados, conforme informações divulgadas pela Federarroz, pela Conab, pelo USDA e pelo Cepea.
Negociações afetadas por preços e baixa liquidez
O mercado mostra pouca liquidez para a negociação da saca de 50kg, cotada a R$ 55,26 em 20 de fevereiro, segundo o Cepea, e isso trava acordos entre produtores e compradores. Com custos mais altos e margens apertadas, muitos arrozeiros evitam vender no mercado interno, em busca de melhores destinos e prazos.
Além disso, a concorrência com mercados vizinhos pressiona as vendas, e produtores apontam que volumes têm sido destinados a mercados externos ou a outros estados, em vez de abastecer clientes tradicionais como São Paulo e Minas Gerais.
Projeções de safra e impacto na produção
Para 2025/26, a Companhia Nacional de Abastecimento, Conab, projeta que a safra do arroz deve atingir cerca de 11 milhões de toneladas, uma queda de 14% em relação ao ciclo anterior. A área de plantio também deve cair, em 11%, segundo levantamento da instituição.
Essa redução na expectativa de produção reflete a combinação de custos maiores, rentabilidade menor e decisões de produtores que deixam de ampliar áreas diante do cenário de preços pouco atrativo.
Estoques globais e pressões externas
O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, USDA, projeta produção global de arroz em 541,16 milhões de toneladas, com exportações estimadas em 62,8 milhões de toneladas de arroz beneficiado, volume 5,2% maior que o ciclo anterior. Esses números reforçam a preocupação de produtores brasileiros com oferta global e competição por preços.
Com estoques mais altos no Mercosul e na Índia, a pressão sobre os preços domésticos aumenta, e o setor brasileiro pede medidas de proteção para garantir competitividade e viabilidade econômica.
Feira, inovação e reivindicações dos produtores
A abertura oficial, organizada pela Federação das Associações de Arrozeiros do RS, Federarroz, ocorre na Estação Terras Baixas da Embrapa Clima Temperado, com expectativa de mais de 21 mil visitantes e 230 expositores. O evento traz painéis sobre tecnologia e mercado, com foco em conectar o campo ao consumidor.
Entre as novidades, a Basf apresenta o fungicida Kilymos, com o novo ingrediente ativo Revysol, voltado ao controle de doenças no arroz, com possibilidade de aplicação também em culturas como soja e milho. Para produtores, inovações são bem-vindas, mas não substituem a necessidade de políticas que reduzam a pressão sobre preços e custos.
Pressões financeiras e pedidos ao poder público
Endividamento e juros altos mantêm produtores sob forte pressão, e entidades solicitam prorrogação de dívidas e medidas que estimulem exportações, reduzam tarifas e protejam a cadeia nacional. O debate na abertura da colheita do arroz busca traduzir essas demandas em ações concretas.
Ao longo da safra, a expectativa é que encontros e negociações promovidos na feira resultem em propostas para equilibrar oferta, garantir renda aos produtores e ampliar acesso a mercados mais remuneradores, visando estabilizar a atividade produtiva no Rio Grande do Sul e no país.